Um lugar no táxi, uma ponte construída

“My father believed that confidence was the most important thing you could teach a child. Even when I was little, he would do things to make me feel important. One of my earliest memories is a taxi driver asking my father to put me on his lap, so he could fit one more passenger. But my father insisted that I deserved my own seat. He’d bring me to work with him and trust me with jobs. He’d take apart mechanical devices and ask me to reassemble them. If I made a mistake, he’d never punish me. He’d even help me hide my report card if I made a bad grade. He was mainly concerned with building my confidence to attempt new things, so that I could always learn by doing. Now as an adult, people call me crazy for attempting things that seem ‘out of my depth.’ This bridge is one example. Nobody is prouder of this bridge than my father. He collects all the newspaper articles.”

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Leila Araghian and Alireza Behzadi are the young designer and builder behind Tehran’s recently completed Tabiat Bridge. Construction of the bridge was completed in 2014 despite the difficulties of international sanctions. The bridge has become a cultural and physical centerpiece of Tehran, and Leila captured the imagination of the architecture world by winning the right to design it at the age of 26.

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(Tehran, Iran)

A publicação do Humans of New York, site do excelente entrevistador e retratista urbano Brandon Stanton, trouxe hoje um depoimento de um iraniano que me comoveu demais. A fala de Alireza Behzadi sobre seu pai condensou em poucas linhas um novo modelo de maternidade/parentalidade que tenho buscado e procurado exercer, em que um dos principais “resultados” sonhados é este: o de gerar um filho confiante e autônomo. Mas também um adulto que leva dentro de si valores engendrados dentro da família.

Posso escrever um texto enorme sobre cada aspecto da fala dele em que identifico um valor ou conceito que eu tento aplicar à minha relação com meu filho. Porém os que mais me capturaram minha simpatia e admiração foram o exercício da confiança e do respeito. Este pai é um sábio.

Como ajudar meu filho a se tornar uma criança, um adolescente, um adulto confiante? A resposta que encontrei nas minhas andanças pela maternidade o pai deste rapaz iraniano já sabia de velho: confiando.

É preciso – e vale a pena – CONFIAR.

Confiar nas capacidades de nossos filhos. Em seu interesse genuíno em aprender e se desenvolver. Confiar na nossa relação de mãe, pai e filho(a). No exercício consciente da maternidade, confiar. Crer que só desta maneira poderemos ajudar nossos filhos a desenvolver sua própria autoconfiança.

E também respeitar: seu corpo, os estágios de desenvolvimento, sua individualidade, suas escolhas.

Parece simples, não? Na tradução dos desejos para os atos cotidianos da parentalidade, nada é tão simples. Uma vontade expressa em palavras pode jamais se cumprir, se nos detalhes aparentemente banais do dia-a-dia não houver atenção e controle para unir o conteúdo das palavras às ações. Pois que as crianças aprendem a partir do nosso modelo e da relação que construímos com elas. Elas nos observam, nos ouvem, nos miram o tempo todo quando estamos juntos. E quando não, recriam em suas imaginações e fantasias tudo aquilo que apreenderam e aprenderam conosco. E é assim que, na continuidade e na repetição dos cuidados e contatos, este sentimento de segurança (assim como todos os outros) vai se formando, se fundando, fixando, sedimentando-se como integrante da personalidade.

O que é um lugar próprio no táxi lotado? Frescura, mimo de pai? Na memória afetiva do homem, tornou-se símbolo de valorização, de confiança em sua individualidade e respeito por seu corpo e, portanto, pelo que ele representa para a criança: a pessoa inteira. Símbolo de cuidado e merecimento de um espaço que é único.

Porém cuidado: é possível fazê-lo sem que isso signifique “mimar” na acepção ruim da palavra, a de produzir um reizinho mandão. Eu acredito até na escolha de vias que evitam a punição como forma de educação. Controverso, sim… Sobre as alternativas a punições (as conseqüências naturais), escreverei outra hora. Por ora, observemos que este pai dedicado também incentivou, desafiou e permitiu que o filho assumisse responsabilidades. Atos de amor dedicado. Eu acredito que são maneiras válidas de chamar o filho para o caminho do destemor responsável. É este que eu quero que meu filho siga também.

Sem dúvida, no entanto, tudo isso só vai funcionar se houver o estabelecimento de limites firmes e claros. Mas deixo também esta conversa para outro dia.

O resultado foi este aí. Um rapaz capaz de sonhar, de não se intimidar com as opiniões alheias negativas e também de ser grato. Parabéns, pai. Parabéns, Alireza Behzadi. Por todas as pontes que vi construídas nesta história.

Tradução livre do texto do HONY:
“Meu pai acreditava que autoconfiança era o que de mais importante se poderia ensinar a uma criança. Mesmo quando eu era pequeno, ele fazia coisas para que eu me sentisse importante. Uma das minhas memórias mais antigas é um motorista de taxi pedindo ao meu pai para me colocar em seu colo, para que coubesse mais um passageiro. Mas meu pai insistiu que eu merecia meu próprio lugar. Ele me levava ao trabalho com ele e confiava tarefas a mim. Ele abria aparelhos eletrônicos e me pedia para montá-los novamente. Se eu cometesse um erro, ele nunca me punia. Ele inclusive me ajudava a esconder meu boletim se eu tivesse uma nota ruim. Ele estava principalmente preocupado em me tornar confiante em tentar coisas novas, para que eu sempre aprendesse fazendo. Agora já adulto, as pessoas me chamam de louco por tentar coisas que parecem grandes demais para mim. Esta ponte é um exemplo. Ninguém está mais orgulho desta ponte do que meu pai. Ele coleciona todos os artigos de jornal.”
 
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Leila Araghian e Alireza Behzadi são os jovens arquiteta e construtor da recém erguida Ponte Tabiat, em Teerã. A construção da ponte terminou em 2014 apesar da dificuldade das sanções internacionais. A ponte se tornou uma peça central física e cultural de Teerã, e Leila capturou a imaginação do mundo da arquitetura ao ganhar o direito de desenhá-la à idade de 26 anos.
 
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(Tehran, Iran)
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No que rapidamente penso quando vejo Mallu e Camelo

Eu não sei bem como começou, nem por quê, já que eles estão juntos há anos. Mas notei por aí pela internet uma profusão de textos debatendo sobre a legitimidade da relação entre Mallu Magalhães e Marcelo Camelo.

Não li todos eles, tenho andado apressada, porém este aqui me deixou, por algumas razões, satisfeita. O motivo principal foi a coerência em dar nome a outros bois: Caetano Veloso e Woody Allen e a suspeita de pedofilia que recai sobre eles.

É duro, porque eu admito, assumo e confesso que amo as músicas e a sensibilidade do primeiro e as assumidas neuroses do segundo. Mas é para mim insuportável a ideia de que Caetano tinha 40 anos quando pegou Paula de jeito – aos 13. Fico me perguntando inquieta: e os pais dela? Onde estavam? O que se passou nesta relação absurda? Tenho discos, já fui a show; hoje, mãe, tenho dificuldades sérias em esquecer esta história. Mesmo sabendo que Paula Lavigne é hoje uma adulta que jamais questionou em público (até onde sei) as peculiaridades de seu relacionamento com o ex-marido, que durou umas duas décadas.

Quanto a Woody Allen, ainda que nada se tenha comprovado, eu tendo a acreditar no relato da filha Dylan, que o acusa abertamente de abuso sexual. Porém, diferentemente dos casos de Mallu e Paula, Dylan teve o apoio público da mãe.

Tem-se condenado a atitude de Marcelo Camelo por escolher uma adolescente catorze anos mais nova como namorada. Tem-se dito que Mallu não teria condições verdadeiras de decidir. O que está faltando, assumindo que esta última sentença seja verdadeira, é questionar os pais de Mallu. Legalmente, não houve estupro. Diz-se que ela era emancipada à época. Ainda assim, se se considera que aos dezesseis anos uma menina não seja capaz de escolher seu parceiro amoroso, talvez isto seja um clamor por uma relação familiar, entre pais/mães e filhas adolescentes, em que haja mais intervenção, presença, diálogo, orientação e controle dos pais?

Do mesmo modo, coloco-me no lugar da mãe do músico e fico imaginando que me sentiria bastante frustrada se meu filho, já homem, não fosse capaz de se relacionar com mulheres de idade e maturidade equivalentes à que se espera para sua idade cronológica. Porém a reflexão sobre as maneiras de educar um menino para que não se torne nem um machista bobo imaturo, nem um abusador, um agressor, é extensa e não vai caber neste texto rápido, escrito de sopetão, num momento de procrastinação e urgência.

Assunto muito importante pouco (ou nada?) debatido no Brasil e que a relação Mallu-Marcelo levanta é este: o casamento de crianças e adolescentes. Segundo a iniciativa internacional Girls Not Brides, que combate e procura prevenir o fenômeno do casamento de menores de 18 anos, o Brasil está em quarto lugar no mundo em números absolutos.

O fenômenos é mundial. Atinge maciçamente meninas (ainda que também afete meninos, numa proporção de 6 a 72 vezes menor, dependendo do país). Perpassa diferentes culturas –  África, América Latina, sul da Ásia destacam-se no mapa como mais atingidos. Pobreza (“uma boca a menos na família”), tradições (o fascínio mitológico exercido pela virgindade), insegurança (um marido, mais velho, eventualmente protegerá a menina de ataques físicos e sexuais) e questões de gênero são as principais motivações para a tolerância – e até estímulo – a que crianças, muitas vezes aos oito anos de idade ou menores, sejam levadas ao altar.

As conseqüências são diversas para a educação, saúde, produtividade, renda e liberdade destas meninas:

– Mundialmente, a maioria das gestações de adolescentes, que têm elevado risco de mortalidade para a mãe, acontece dentro de casamentos.
– Estas jovens se tornam mulheres com muito mais chance de sofrer violência doméstica e contaminação por HIV/AIDS,
– Adolescentes e crianças casadas têm muito menos acesso a educação e, portanto, ao mercado de trabalho, tornando-se, por muito tempo ou para sempre, dependentes de seus maridos e eventualmente jamais saindo do ciclo de pobreza.
– Elas amadurecem sob condições adversas, muito freqüentemente sem capacidade ou meios de conhecer ou exercer sua liberdade.

Muitos países têm leis que impedem estes casamentos – que não são cumpridas. São casos flagrantes de violações à Declaração Universal dos Direitos das Crianças. São também causa e conseqüência inequívocas de desigualdade de gênero. Vale a pena dar uma olhada na página (Girls Not Brides ).

Feminismo, machismo, pedofilia, relações intra-familiares, emancipação de adolescentes, diálogo, controle parental, como educar uma menina ou um menino para um mundo mais respeitoso e menos violento, casamento de crianças. Até que a hitória Mallu-Marcelo dá o que pensar.

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Nosso filhos e os estranhos

No Estadão de ontem,  um artigo muito bom do meu colega Daniel Martins de Barros apazigua as mães alvoroçadas com um vídeo que tem circulado no Facebook sobre seqüestro de crianças pequenas. No vídeo, um ator simula convencer algumas meninas e meninos que brincam despreocupados num playground a ir embora com ele para ver filhotinhos do cão que carrega no colo. Daniel nos lembra de que as crianças estavam sendo supervisionadas por suas mães, e que isso é o mais importante para evitar sequestros reais. Eu concordo com ele.

Ainda assim, penso que orientar nossos filhos sobre como se comportar com estranhos é possível e está ao nosso alcance como pais/educadores. Como já contei antes, aqui na Alemanha as crianças são ensinadas a andar na rua, a ir para a escola sozinhas, andam de bicicleta na rua em grupo sem adultos vigiando. Ensinadas: ninguém nasce sabendo.

De maneira geral, os alemães são mais reservados no espaço público. Ainda assim, eu vivo sendo cumprimentada na rua, no ônibus, no mercado; pessoas me abordam pedindo informações; freqüentemente adultos puxam conversa com meu filho e, mais de uma vez, já lhe ofereceram chocolates e balas. Tudo na minha frente, claro. Até porque não chegamos à fase da “independência urbana”: Samuel ainda nem fez 4 anos.

Estarei mentindo se afirmar que o tal vídeo não me incomodou. Pode ser manipulador e falacioso, mas reavivou em mim a dúvida sobre qual a melhor maneira de proteger meu filho de estranhos mal intencionados. Afinal, não é porque as ruas alemãs são mais seguras que as brasileiras que não haja lobos maus à espreita. E, sabendo que tenho de prepará-lo desde cedo para uma vida independente na rua, o tema já era objeto de reflexão em nossa casa há tempos.

Uma coisa boa daqui é que existem livros infantis sobre quaisquer temas que se procure. Já faz meses que comprei um com uma personagem que ele gosta, exatamente sobre… abordagem de estranhos. Conni, do alto de seus 6 ou 7 anos, volta sozinha da escola para casa e se depara com uma nova obra, que interrompe a passagem pela rua que é seu “caminho escolar” – o caminho habitual que ela percorre para ir e voltar todos os dias. Um homem que ela nunca viu mais gordo oferece ajuda e tenta convencê-la a acompanhá-lo. Conni se lembra então das orientações da mamãe, e sai correndo de volta para a padaria, cuja vendedora sempre é simpática com ela. À noite, antes de dormir, o papai lê Chapeuzinho Vermelho. Conni conclui: Chapeuzinho não deveria ter ido na conversa do lobo…

Pobre Chapeuzinho – lá tem maturidade para saber? A culpa não é dela. É só do Lobo, que acabou com a barriga rasgada pelo caçador. Chapeuzinho teve de aprender pela via mais dura. Mesmo assim, confio que nossas Chapeuzinhos, nossos Joõezinhos e Marias (que se encantam com a casa de chocolate no meio da floresta) possam se guiar e se fortalecer através nossas palavras e ações. Em inglês, uma palavra que está na moda: “empowered”.

Por outro lado, realmente não gosto da ideia de que meu filho cresça temendo e se fechando totalmente para qualquer desconhecido que cruze sua vida. Seria o efeito adverso do excesso de zelo, a paranóia. Quantos encontros com desconhecidos não produzem conversas inesquecíveis, momentos sublimes, experiências memoráveis? Taí, todos os dias nas redes sociais, o trabalho genial do Brandon Stanton, do Humans of New York, que não me deixa mentir. Além disso, é o que meu filho me vê fazer diariamente: cumprimentar, trocar uma ou duas palavras sobre o tempo, informar, pedir e oferecer ajuda a gente que nunca vi antes e nunca mais verei. Não posso apenas lhe dizer: nunca fale com estranhos! Não é o exemplo que ele tem de nós.

A melhor solução que encontrei é mais ou menos o seguinte. Digo a ele: “Filho,
1) Se um adulto ou criança grande abordá-lo e você estiver conosco (papai, mamãe), tudo OK.
2) Se você estiver sozinho, não aceite nada (brinquedos, doces, convites), não entre no carro, não vá junto a lugar nenhum sem perguntar para a mamãe antes. (Isso não vale só para estranhos. Temos combinado que ele só irá de carona com alguém se tivermos conversado antes.)
3) Adultos não pedem ajuda a crianças pequenas. Um adulto só deve pedir ajuda a outro adulto. Se estiver sozinho, diga que não tem como ajudar e se afaste. Volte para um lugar seguro (padaria, uma loja, por exemplo) e avise que tem alguém precisando de socorro.
4) Adultos não pedem segredo a crianças. Não faça nada que alguém te peça para não contar para a mamãe e papai.
5) Os únicos adultos que podemos tocar suas partes íntimas somos papai, mamãe e as professoras, e apenas para limpar/lavar.”

Eu não sei – e não tenho como saber – se estas orientações serão suficientes ou não. Elas vêm sendo ditas há tempos, em ocasiões oportunas, ora aqui ora ali repetidas, sem exageros, num tom calmo mas seguro (das coisas que fazemos questão, assim como não colocar o dedo na tomada ou olhar antes de atravessar a rua).  Vão entrando devagar na memória.

É verdade, porém, que sequestradores e abusadores sabem se aproximar e seduzir crianças – e a culpa, a responsabilidade JAMAIS será delas. A nós, pais/educadores/cuidadores, sempre caberá a supervisão – e também a fé de contar com a sorte, com Deus, com o que for, porque a vida é incontrolável.
É muito difícil achar o balanço entre ensinar a malícia necessária e não incutir/nem se deixar dominar por um medo patológico. O medo… ah, está sempre rondando. Porém eu gosto de confiar que nossos meninos e meninas podem lentamente aprender sobre seus corpos e sobre as relações com os outros e a reunir elementos dentro de si que as protejam, mas também lhes permita se abrir para a vida: informação, confiança nos cuidadores, noções de auto-cuidado. E autoconfiança.

***
O blog esteve parado nos últimos meses, mas lentamente será reativado!
Um abraço e obrigada a meus leitores.

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Tragédias ao sol

Crianças esquecidas nos carros.
Três nos últimos dias. Mortas.
O que dizer, além do que já se escreveu sobre a quebra da rotina e seus perigos, e as dicas para não esquecer do próprio filho? (Colocar a bolsa, a carteira, o celular no banco de trás, ou a sacola do bebê no banco da frente, evitar música alta que neutralize os sons da criança, ouvir um disco infantil, amarrar uma fralda ao volante…)

Um comentário, lido na respectiva matéria do blog Maternar, esbanjou sensatez: “Faltou apontar dois outros fatores: 1) o modelo automobilístico que impera no Brasil, em vez de se optar – usuários e governo – por meios coletivos de transportes e 2) O quão caro é criar filhos no Brasil, se você não quer depender do SUS e da educação pública. Isso OBVIAMENTE acaba impactando no quanto de trabalho os pais têm de fazer, para equilibrar as contas.” (da leitora Caroline Chang)

Dependência do automóvel, distâncias enormes entre casa e trabalho, trânsito insuportável, dificuldade de percorrer a cidade com um carrinho de bebê (a pé ou no transporte público), a dura rotina do trabalhador médio brasileiro nas grandes cidades, poucas horas diárias na presença dos filhos – acredito mesmo que todos estes são fatores que possam ter contribuído para as tragédias.

Talvez também o Insulfilm? Não sei se foi o caso, mas certamente a escura película evita que crianças esquecidas sejam acudidas por transeuntes, que poderiam se mobilizar, chamar o dono do veículo ou os bombeiros. Possivelmente, ele também acelera o processo de superaquecimento no interior do carro – pois o carro funciona como uma estufa: a temperatura lá dentro é invariavelmente maior do que fora.

Alguns fatos para dar toda a dimensão do risco:

1) Uma temperatura de 46 graus Celsius num ambiente fechado é fatal para crianças pequenas, que são bem mais sensíveis ao calor (sua regulação da temperatura corporal ainda é imatura). Mesmo temperaturas não tão altas podem rapidamente ocasionar desidratação grave e choque;

2) A temperatura interna de um carro sobe muito mais rápido do que se imagina:
após 5 min —-> eleva-se em 4.C
após 10 min —> eleva-se em 7.C
após 30 min —> eleva-se em 16.C
após 60 min —> eleva-se em 26.C
(em relação à temperatura externa)
Portanto, num dia quente, 
a 34.C, bastam 15 minutos para que o interior do carro atinja os fatais 46.C – e até lá, a criança já passou MUITO calor e deve estar precisando de intervenção médica.

3) Janelas um pouco abertas nem sempre são suficientes para refrescar. 

4) Ou seja: evite AO MÁXIMO deixar NÃO DEIXE seu filho – ou seu cão – sozinho dentro do veículo nem por poucos minutos. Cuide também para que crianças não tenham acesso livre ao interior do veículo sem supervisão. E mais: se vir uma criança nestas condições, ainda que com as janelas abertas, não aguarde mais do que alguns poucos minutos para tentar socorrê-la (encontrar os pais ou acionar a polícia/bombeiros).

Lembremos também que a cadeirinha do carro, com seus grossos acolchoados de material sintético, envolve o corpo da criança de maneira a não deixar o calor se dissipar.

Fatos tirados daqui,  daqui e daqui.

Garagem vazia

Uma ideia que pessoalmente acho ótima é a de escolas telefonarem quando um aluno não comparece (e os pais não entraram em contato). Não vejo isso como uma simples e fácil transferência de responsabilidade, mas como o estabelecimento de uma rede de proteção à infância. Na Alemanha, é praxe: até a polícia é acionada, caso os pais não sejam encontrados, já que muitas crianças vão a pé, sozinhas, para a escola. (Bem, aqui, os responsáveis pagam multa e podem ser condenados à prisão, caso os filhos não compareçam às aulas sem motivo médico…)

No fundo mesmo, creio que a melhor medida preventiva anti-esquecimento, além de um espelho no caso das cadeirinhas viradas para trás (cuidando para que o motorista não se distraia com a fofurice do bebê, claro), é simplesmente… CONVERSAR com as crianças, ou cantar para elas, enquanto se dirige. Não importa a idade: recém-nascidos já conhecem e amam a voz de seus pais. Se o hábito for este, quando eles dormirem, sentiremos sua falta ou aproveitaremos, conscientes, os minutos de silêncio. Porém nossa atenção não nos trairá tão facilmente – sem falar que a força do vínculo só se intensificará.

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Pôxa, Maurício!

Na semana passada, o tema da publicidade infantil voltou à baila na imprensa paulista, com matérias da Mariana Barbosa, da Folha de São Paulo, e da Maíra Teixeira, no iG. A notícia eram os resultados de um estudo encomendado pela Maurício de Souza Produções, a fim de estimar os prejuízos do mercado publicitário por conta das restrições impostas pela já famosa resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Infância e da Adolescência (Conanda), publicada em abril no Diário Oficial da União. A empresa está liderando a reação contra esta resolução. 

Quando soube, minha reação apenas foi… Pôxa, Maurício! Justo você?!

Eu sou plenamente a favor do conteúdo da resolução 163, que, na prática, elimina os mecanismos de direcionamento da publicidade ao público infantil. Claro que campanhas educativas sem fins mercadológicos não são afetadas, como a do Zé Gotinha. Porém, mesmo o uso das personagens da Turma da Mônica para vender maçãs é considerado impróprio segundo a resolução, o que gerou críticas ao suposto “exagero” da decisão dos conselheiros. Pessoalmente, não tenho como julgar se é exagero ou não. Penso na possibilidade da Coca-Cola imprimir seu inconfundível urso polar em sacos de espinafre pré-lavado e fico me questionando se isto seria adequado ou de uma profunda desfaçatez. Lembrando que um dos maiores problemas associados à publicidade infantil são as elevadas taxas de obesidade entre crianças, inclusive no Brasil.

Não que a Maurício de Souza Produções, cuja maior parte da renda advém, pelo que entendi, do licenciamento de produtos que estampam personagens da Turma da Mônica (cerca de 2700), não tenha o direito de brigar por proteger seu capital ou deva estar obrigatoriamente travestida de valores morais especialmente elevados (embora assim fosse me impressionar muito mais, a mim e a outros pais e mães que conheço).

Pois a grande vitória da resolução, no meu entendimento, é a de que existem partes significativas da sociedade que estão lutando por um impor um padrão mais ÉTICO no trato com as crianças brasileiras. Crianças que nasceram já depois da primeira vitória de Lula para presidente, quando o PT ainda se apresentava (e muitos acreditavam) como o partido guardião da ética; crianças cujos pais constataram que esta alegada virtude não se sustentava; crianças que crescem diariamente bombardeadas com notícias cada vez mais estapafúrdias de corrupção, falta de decoro e de ética vindas de TODOS os lados.

Anunciar para crianças é anti-ético, simples assim. Se o marketing é uma tentativa deliberada de manipular corações e mentes com a finalidade de alavancar o consumo de um produto ou de uma ideia, ele não é visto com ressalvas quando se dirige a adultos, pois adultos normais são considerados capazes de refletir e exercer sua liberdade de escolha.

Por definição, crianças não preenchem estes critérios. Crianças exigem ser tuteladas por adultos – desejavelmente, seus pais; porém nossa sociedade não considera que apenas e exclusivamente os pais devam ser responsáveis por zelar pelos menores de idade: do contrário, não haveria escolas nem métodos pedagógicos (demonstrando que uma criança simplesmente não tem como ser educada EXCLUSIVAMENTE por seus progenitores), não haveria o Estatuto da Criança e do Adolescente, não haveria a responsabilidade do governo em prover hospitais, segurança e educação. E isso é bom. Se as crianças garantirão a continuidade de uma sociedade, de um grupo humano, sua proteção tem de ser compartilhada por todos os membros deste grupo, pois é do melhor interesse de todos – o que não quer dizer que a responsabilidade dos pais seja diminuída (ela continua sendo majoritariamente paterna e materna), mas sim que outros atores da sociedade não devam simplesmente lavar as mãos como se não tivessem nada com isso.

Pessoas com transtorno bipolar que sofrem de mania freqüentemente gastam mais do que podem em produtos de que não precisam; idosos com quadros demenciais incipientes não raro arruinam as finanças da família; jogadores compulsivos ou dependentes químicos, idem. São pessoas que, por conta de doença mental, perderam a melhor capacidade de julgamento da realidade, crítica sobre sua condição e controle dos impulsos e, assim, têm limitada sua capacidade de exercer a liberdade de escolha. Pergunta: seria ético um vendedor se aproximar de um adulto portador de qualquer destas doenças, com o objetivo de delas se aproveitar para empurrar seus produtos? A situação é comparável, uma vez que, por definição, crianças não têm sua capacidade de julgamento, de decisão sobre seus atos e seu futuro, de controle dos impulsos, plenamente desenvolvidas.

Agora, por que tanta polêmica, então, em relação à resolução do Conanda? Se ela não dispõe de maneira nenhuma sobre o CONTEÚDO da publicidade, mas apenas sobre seu DIRECIONAMENTO a um tipo de público? Simples: porque anunciar para crianças funciona. Não há dados brasileiros (não encontrei), mas em 2012 a Digitas, empresa de marketing digital, publicou um relatório informando ser de 1,2 trilhões de dólares o poder de compra anual das crianças americanas (dinheiro de mesadas e presentes somado à influência sobre os gastos dos pais). Os filhos de hoje contribuem substancialmente na decisão de compra dos artigos de supermercado ao carro da família – e os publicitários sabem muito bem disso. E mais importante ainda do que funcionar no presente, o marketing infantil garante a criação de grupos de consumidores fiéis que terão a marca na memória por muitos e muitos anos: pela vida.

Algum problema em ver uma marca lutando para sobreviver no presente e garantir seu quinhão no futuro? Nenhum. Desde que o faça por meios éticos. O fato é que a Mônica e sua turma no saquinho de maçãs, ou até mesmo alguns anúncios de TV, são a parte ingênua da coisa. O marketing de internet, que conta com a ausência do olhar dos pais (já que o uso do smartphone ou do tablet é mais individual do que o da TV), se infiltra desde os anúncios laterais nos blogs à criação de redes sociais específicas para crianças em que para participar é preciso comprar produtos – reais ou virtuais. Sem falar no marketing nas escolas, travestido de ações educativas, em que marcas disputam a atenção das crianças que deveriam estar aprendendo (por exemplo, a ser críticos) ou interagindo entre si.

Choca-me um pouco que justamente o Maurício de Souza lidere este combate a uma decisão que avança na proteção à infância, porque ele e seus personagens já estão no imaginário cultural brasileiro há várias gerações. Ao Maurício, não é preciso mais recorrer ao vestido vermelho e os dentes da sua personagem mais famosa para emprestar credibilidade e estimular vendas. Sua assinatura única é reconhecida por qualquer pai e mãe de hoje. Seu rosto, idem.

Com criatividade – que as agências brasileiras já comprovaram inúmeras vezes dominar-, uma mensagem dirigida às crianças pode ser dirigida a seus pais. Questão de mudar o público-alvo de uma mensagem, não seu conteúdo principal. Ninguém está proibindo o anúncio de brinquedos em horário nobre. Nem de maçãs, das genéricas, pela manhã. Alguém tem dúvidas de que o mercado se adapta? Eu não.

Maurício, #anunciapramim. Você pode até usar uma foto antiga. Do tempo em que eu acreditava no seu total e irrestrito comprometimento com a infância.

 

 

 

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As denúncias envolvendo a FMUSP e nós – Parte 1

Nas últimas semanas, notícias sobre estupros e violações de direitos humanos supostamente ocorridos dentro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) repercutiram em todos os meios de comunicação. Três audiências públicas sobre o assunto já foram realizadas na Assembléia Legislativa de São Paulo (com a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, da Cidadania, da Participação e das Questões Sociais – CDD) e, nesta semana, uma CPI será instaurada para apuração deste tipo de ocorrência não só na USP, mas também em outras universidades paulistas.

Um escândalo que me dói fundo, porque me formei nesta honrosa instituição em 1999 e meu pai, livre-docente da Neurologia, dedicou imensa parte de sua vida a esta escola (e ainda prossegue).

No entanto, notícias deste tipo estão longe de ser exclusividade da FMUSP. O DCE da USP registrou aumento das denúncias advindas de outras unidades da universidade desde que os casos foram levados à imprensa. Há acusações de estupros ou tentativas também na Poli (USP), FFLCH (USP), Unesp, Federal do Espírito Santo, Federal Rural do Rio, UERJ, UFPE, UFAC, Universidade Fumec (MG)… Um estudo transversal realizado em 2008 na Unicamp buscou avaliar a prevalência de violência de gênero e sexual entre os alunos e encontrou que, das alunas participantes, 56,3% sofreram algum tipo de violência e 9,4% sofreram violência sexual desde o ingresso na universidade; entre os homens, 29,9% declararam ter perpetrado algum tipo de violência e 3,3% admitiram ter praticado violência sexual. (Estranha e lamentavelmente, o estudo não informa quantos homens sofreram violência, nem quantas mulheres foram agressoras.) (Nota: 23 486 alunos foram convidados a tomar parte no estudo e 2430 aceitaram.)

Como apontou meu colega Daniel M. Barros em seu blog, estupros em universidades não são incomuns. Nos EUA, a situação se mostra ainda mais escabrosa – ou talvez assim pareça. A verdade é que o país já está em outro patamar de mobilização pública e governamental sobre o tema “segurança no campus”: desde 1990, o Clery Act obriga as universidades e colleges americanos a reportar ao governo federal dados sobre crimes ocorridos dentro e nas áreas públicas em comunicação com o campus, assim como nas residências estudantis. As informações são disponibilizadas publicamente. Nestes seus 24 anos de existência, o Clery Act já foi aperfeiçoado e, hoje, impõe procedimentos e condições básicas para o manejo de crimes sexuais e emergências, incluindo a proteção às vítimas e denunciantes contra retaliações.

Como resultado, nada menos que 79 instituições americanas estão atualmente sob investigação federal a fim de verificar como têm lidado e respondido às denúncias de violência sexual nos campi.

Aparentemente, pelo que se leu, a diretoria da faculdade foi pega de surpresa com as denúncias tornadas públicas. Respondeu proibindo o uso de álcool e firmando o compromisso de colocar em funcionamento um Centro de Defesa de Direitos Humanos para solucionar os problemas. Ou seja, uma estrutura prévia para prevenção de violências e diretrizes claras sobre o que fazer com os casos que chegassem ao conhecimento da instituição talvez estivessem faltando – ou, se presentes, falhando. O afastamento voluntário e as declarações do Prof. Paulo Saldiva, que presidia uma comissão interna que apurava as denúncias, sugerem fortemente esta hipótese.

É sabido que a maioria dos crimes sexuais ocorre entre pessoas que se conheciam previamente. Um estudo dinamarquês com mais de 2500 vítimas de ataques sexuais, publicado agora em outubro, procurou identificar fatores de risco apresentados por estas mulheres. Desta população, 2/3 eram jovens (15-24 anos), 75% conheciam o agressor (em 50% dos casos, eram namorados, ex-namorados, amigos ou parentes), 47% não apresentaram lesões físicas, 33% já tinham sido vítimas anteriormente e 40% haviam consumido 5 ou mais doses de álcool no momento da agressão (estas eram as que tinham mais chance de ser atacadas por desconhecidos). As agredidas por estranhos tinham maior probabilidade de apresentar lesões físicas e de reportar à polícia.

Dados brasileiros recentes corroboram o risco aumentado de se tornar vítima ou mesmo agressor sob intoxicação alcoólica. No entanto, é fundamental deixar bem claro aqui que o fato de uma mulher ter bebido NÃO a torna culpada ou responsável por ter sido atacada – ao contrário: estupro de vítima alcoolizada, que não esteja em condições de consentir com a relação sexual, é tipificado como estupro de vulnerável. Foi o caso de algumas das alunas que expuseram suas histórias nas audiências da ALESP.

Por vergonha, medo de ser acusada de culpa, de perder o parceiro, de desestruturar a família (quando o agressor é um parente próximo) e até despreparo no tratamento com as vítimas, a maioria maciça não vai à polícia, nem procura ajuda médica. Em 2012, mais de 50.000 estupros foram denunciados, mas há estimativas de que isto represente cerca de 10% do número real de casos. Na situação específica dos colleges americanos, a vergonha, o desconhecimento sobre as delimitações legais do estupro, a sensação de culpa e o desejo de não caracterizar o agressor (seu conhecido) como um estuprador são motivos alegados para não se fazer a denúncia.

A existência de uma estrutura confiável para recebê-las, que promova o sigilo e proteja a integridade da vítima, é, portanto, essencial nas faculdades (tanto quanto nas delegacias) para que os casos venham à tona e recebam o merecido encaminhamento.

Diferentes estratégias de prevenção primária de violência sexual (ou seja, que pretendem evitar que novos casos ocorram) podem ser implementadas em escolas e universidades. Elas podem intervir sobre indivíduos, sobre grupos específicos, sobre a comunidade universitária ou sobre a organização da instituição ou sobre o ambiente físico (segurança do campus). O ideal é que sejam articuladas e combinadas para se obter o melhor resultado.

Em seu ótimo texto publicado no Estadão há poucos dias, a Profa. Lilia Blima Schraiber, do departamento de Medicina Preventiva da FMUSP, e que colabora com o coletivo feminista Geni – fundado pelas estudantes que se mobilizaram para levar adiante e tornar públicas as denúncias -, nos lembra de que os casos de violência e abusos diz respeito a todos nós, inclusive àqueles que se sentem tão distantes, tanto das vítimas quanto da Faculdade de Medicina. Ela nos lembra também de que os estudantes da FMUSP, em sua grande parte até o segundo ou terceiro ano do curso, são adolescentes. E crava:

(…) crianças e jovens ainda estão aprendendo o convívio em família, em grupos e em sociedade. (…) Este ensinamento é tarefa dos adultos, pais e professores. Somos nós, adultos, que, ao banalizarmos as violências entre crianças e jovens, ensinamos e introduzimos os jovens a um convívio em que as violências são possíveis, praticáveis e aceitas como problema eventual. Mas o fazemos porque também toleramos e minimizamos as situações que ocorrem entre nós, adultos.

Por concordar com suas palavras, trouxe o assunto para o blog: para refletir sobre quais pontos da educação de nossos filhos podem contribuir para prepará-los melhor para a vida num campus. Acredito que boa parte da prevenção está nas nossas mãos: tanto para evitar que nossas filhas sejam feitas vítimas, como nossos filhos se tornem agressores (não sei qual pesadelo é pior). Porém interrompo esta primeira parte por aqui. (Mas já aviso: levarei alguns dias para publicar a continuação…)

 

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No Kindergarten, nossos valores

Já contei em post anterior que nós levamos mais de dois anos para encontrar um Kindergarten para o Samuel. Após visitar alguns, conversar com mães e educadoras, tentar entender os sistemas de educação infantil na Alemanha e refletir sobre o que tinha visto, escolhemos um Kindergarten privado, pequeno, localizado no meio de um idílico parque, que fora fundado por uma iniciativa de pais em 1971.

É um Kindergarten privado, mas sem fins lucrativos, administrado pelos pais cujos filhos lá estudam. Da gestão financeira às reformas no prédio, da organização das festas à preparação do café da manhã das crianças, da seleção das educadoras à limpeza quando a faxineira tira férias, tudo é organizado e realizado por nós, pais. O Kindi, como é carinhosamente chamado, vive, portanto, do engajamento das famílias. Tem funcionado: nas turmas mais recentes, algumas crianças já são filhas de ex-alunos, que retornam não só por conta de suas boas lembranças, mas por confiarem nos métodos pedagógicos, na maneira democrática como a instituição se estrutura e por valorizarem sua participação na vida escolar dos filhos. Acima de tudo, por confiarem também nas educadoras, que estão lá há anos: Tarja, uma senhora finlandesa, há quase quarenta, Helga, há dezessete e Ina, que trabalha menos horas por semana, há quatro. Quando Tarja se aposentar, entrará em seu lugar a Cosima, que está em formação com estágio prático conosco e cujo filho era aluno até 2011. (Cosima era designer gráfica e decidiu mudar de profissão após se apaixonar pela vivência na escolinha.)  Esta estabilidade na equipe eu não encontrei em nenhum outro Kindergarten que visitei durante minha longa busca pela escola ideal.

foto kindi mini

E meu objetivo era encontrar a escola ideal não só para nosso filho, mas para nossa família.

A cada três semanas, há reunião de pais. Na penúltima, a pedido das professoras, os pais presentes se juntaram para pensar e listar quais valores queremos que sejam transmitidos por elas durante os anos de Kindergarten. Houve a oportunidade de discutir em pequenas rodas e colocar no papel o que a nós, famílias, parece fundamental, essencial, que uma criança pequena receba de sua segunda casa. As conclusões do time serão apresentadas na próxima reunião.

Meu marido e eu sabemos mais ou menos o que julgamos importante e inclusive conversamos sobre alguns dos valores com parte da equipe e com pais que ocupam os cargos mais administrativos, durante o processo de seleção da escola. Porém devo admitir que fui um tanto pega de surpresa pelo pedido das professoras. Uma surpresa boa, claro.

Em primeiro lugar, porque as vivências infantis (como as da vida adulta) se dão num continuum. Uma criança sabe, obviamente, separar o que é da escola e o que é de casa – porém isto se dá em algum grau, e não perfeitamente, como o é para um adulto. Por exemplo, meu filho jamais falou português na escola, pois sabe que por lá o território é alemão. Lá, ele não se recusa a usar seus “Hausschuhe”, sapatinhos confortáveis usados exclusivamente dentro de casa e no Kindergarten (alemão não entra em casa com os sapatos da rua). Já em casa, é uma briga para ficar de meia… No entanto, crianças que são difíceis para comer (que se recusam a comer legumes e verduras, por exemplo) freqüentemente passam a aceitar melhor uma alimentação variada após iniciarem o Kindergarten, onde a oferta de legumes e frutas é diária, guloseimas não fazem parte da rotina e os amigos demonstram prazer em comê-los. Esta habilidade aprendida em grupo é levada então para casa.

Quando falamos de valores, estes substantivos abstratos, então, acredito que a continuidade entre vida familiar e vida no Kindergarten é importantíssima. Respeito por si mesmo (suas ideias, seu corpo), pelo outro e pela natureza, disposição para ouvir o outro, resolução de conflitos pelo diálogo, valorização da curiosidade, da vontade de aprender e da perseverança, preferir fazer o que é mais certo e não o que é mais cômodo ou rápido, solidariedade, amizade, consideração – são exemplos de valores que gostaria de incutir em meu filho. Saber que posso contar com a disposição da escola em conhecer o que é importante para mim e, especialmente, promovê-los é inestimável.

Especialmente quando nos deparamos com tantas notícias tristes de desvios de conduta e crimes ocorrendo dentro de instituições que existem apenas para servir e zelar pelos cidadãos.

Uma sociedade melhor – em que o respeito ao outro e ao que é do outro são centrais e valem para TODOS – só tomará corpo, de verdade, se a transformação começar por nós, mães e pais. Minha humilde sugestão de primeiro passo: dar-se um tempo e colocar no papel quais destes substantivos abstratos são indispensáveis como legado a seus (nossos) filhos, desde sempre em suas vidas. E ter a lista sempre na lembrança, dando um norte a nossas escolhas.

Nunca é cedo para começar.

Sami e Andi na chuva floresta

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