“Meu filho é agressivo”- Parte 2

Querida Amiga,

prometi voltar para contar como foi que conseguimos melhorar o clima aqui em casa e aqui estou. Passei, passamos (eu e meu marido) por uma busca longa e foi nos princípios da chamada educação positiva, ou educação respeitosa e “mindful” (consciente e atenta), que encontramos as respostas a nossas perguntas. Nosso estilo de educar já se inclinava fortemente para o que prega esta filosofia parental muito antes de nos depararmos com ela, então foi com poucos ajustes e esclarecimentos que mergulhamos de vez no processo. Mas isso dá assunto para outro post. Neste momento, vou me concentrar nas dicas e orientações para lidar com a questão da agressividade das crianças pequenas.

Antes de mais nada, o passo mais importante (talvez o mais difícil) seja o da aceitação. Aceitação? Sim: aceitar que nossos filhos são pequenos humanos, mas tão humanos quanto qualquer adulto. E que, portanto, também têm a capacidade de experimentar sentimentos considerados ruins – como raiva, fúria, alguma crueldade, irritação, nervosismo, medo, desconforto, angústia, ansiedade etc. Devido a peculiaridades próprias da idade, como comentei no texto anterior, mas também da própria condição humana, estes sentimentos muitas vezes são expressos de maneira que nós, adultos, consideramos inadequada, exagerada, agressiva. Se a gente se dá o direito de ter dias ruins, por que negar o mesmo a nossos filhos? Aceitar seus sentimentos “ruins” é a base para lidar com todas as situações difíceis da jornada da parentalidade.

Afinal, o que eles manifestam com um xingamento, um tapa, um chute, um copo de leite derramado de propósito num momento de raiva é um profundo desconforto com alguma situação que lhes foge ao controle. O que eles buscam é conexão, aceitação e limites: tudo o que vai lhes ajudar a superar o descontrole (que é involuntário), além de, aos poucos,  construir e reforçar vias que impliquem em respostas menos impulsivas e físicas (menos chutes e xingamentos) e mais ponderadas e organizadas (mais discurso). Menos corpo, mais palavras.

E como sabemos, não é fácil ser ponderado num momento de intensa frustração… Então, do ponto de vista prático, como podemos ajudá-los?

  1. Exercitando a paciência e o auto-controle em nós mesmos. Especialmente nos momentos em que somos alvo de sua fúria. Difícil, eu sei. Mil vezes mais fácil falar do que fazer, sem dúvida. Porém com a perspectiva de que a) mesmo que você seja a melhor mãe ou pai do mundo, ainda assim pode acontecer de seu filho pequeno te bater, b) que faz parte do desenvolvimento normal e c) de que podemos aceitar os sentimentos ruins deles, a vida vai ficando mais fácil.
  2. Procurar entender um padrão nos ataques de fúria para poder se antecipar e preveni-los: observar se ocorrem em determinados horário(s) do dia, fim da tarde, antes do almoço, após chegar da escolinha… Fome, sono, hiperestimulação são desencadeantes clássicos. Excesso de doces ou de televisão/internet tornam seu filho mais excitado e mais propenso a irritação. Rotina com horários relativamente rígidos para dormir e comer e garantir uma quantidade de horas de sono adequadas para a idade fazem milagres.  Tempo livre para brincar, mexer o corpo – especialmente em parques, espaços grandes, em contato com a natureza – e descomprimir das tensões e estímulos do dia, idem.
  3. Para as crianças que agridem outras na escolinha, ou que agridem irmãos: quando se observa que os ânimos estão se acirrando, tentar bloquear os ataques físicos contra objetos ou pessoas. Ou seja, procurar ficar perto para segurar bracinhos e perninhas antes que atinjam algo ou alguém. Segure e diga com firmeza e calma que bater não pode.
  4. Se esforçar para não se deixar abalar pela agressividade dele e não julgar. O mantra é: ele não está sendo ruim, ele está tendo um momento ruim. Procurar não enxergar uma agressão como algo pessoal contra vc, adulto, mas como uma manifestação de dificuldade do seu filho de lidar com as emoções que o estão invadindo (lembrando que eles mal podem compreendê-las ou nomeá-las).
    O não julgar e tentar se manter serenos é a parte mais trabalhosa. Especialmente se acontecer na frente de outras pessoas… quando sentimos (por pressão interna nossa mesmo) que nossa capacidade de educar está sendo posta à prova e que DEVEMOS responder de maneira autoritária, corretiva (como diz a tradição).
  5. Focar no sentimento por trás e nomeá-lo, tentando não transmitir julgamentos no tom de voz.”Vejo que vc ficou muito brava porque a mamãe cortou o pão em quadrados e não em triângulos”.

    “Você está se sentindo frustrado porque hoje não vai ganhar um carrinho.”

    Essa parte também é difícil, mas focar no sentimento nos ajuda a isolar nossas próprias emoções ruins que essas crises despertam. Às vezes só isso já basta e a criança se acalma. A questão aqui é aceitar os sentimentos sem achar que ela está te desrespeitando, te desafiando, tentando te manipular. Respeito é um conceito abstrato que vai vir com o tempo, à medida que ela entender no corpo/na experiência dela o que é ser respeitada.

    Não é preciso ceder à birra. Quanto mais seguros estivermos em relação à afirmação do limite imposto, mais fácil é para a criança e para nós mesmos. Ainda que haja protestos.

    E no entanto, ceder à birra de vez em quando também não faz muito mal a ninguém. Mas isso também é assunto para encher outro post inteiro.

  6. Oferecer espaço para conexão, diálogo, se acalmar: abaixar à altura da criança, conversar num tom de voz firme, seguro, porém tranquilo, oferecer colo, um abraço, ficar junto no quarto até se acalmar, olhar no olho pra falar dos sentimentos. Muito importante, e muito mais eficaz do que mandar pro castigo, ameaçar ou punir. Pode falar dos seus sentimentos também.”Sei que vc está chorando porque prefere continuar brincando a arrumar a bagunça. Mas é hora de parar a brincadeira e arrumar um pouco antes de dormir. É muito frustrante para a mamãe também quando eu peço que você jogue sua roupa suja no cesto e você a deixa espalhada pelo chão.”

    Ah, sim, fases de transição (parar de brincar para tomar banho, desligar a TV para jantar, etc) são sempre críticas. Avisar alguns minutos antes – se preciso, mostrando os ponteiros do relógio (funciona melhor para os de 4-5 anos) – também é uma estratégia eficaz de prevenção. Pré-escolares gostam de rotina e de ser avisados sobre o que vai acontecer.

  7. Se seu filho te bater, vc pode segurar as mãos dizendo um não firme e se afastar. Esta é uma consequência natural que traz uma lição importante: não ficamos perto de quem nos machuca.”Vou ficar um pouco na cozinha até você se acalmar, enquanto vc fica aqui na sala, porque eu não gosto quando alguém me bate. Quando vc se acalmar, estarei te esperando.”
  8. Se sentirmos que nossos próprios limites de paciência estão sendo ultrapassados, podemos comentar que precisamos ir para o quarto, para a cozinha, tomar um copo d’água, respirar fundo, contar até dez (ou cem) – algo que dê a eles um exemplo de como se acalmar. Proteger nosso próprio espaço e demonstrar uma estratégia para retomar o autocontrole também são lições importantes para o longo prazo.

Foi quando conseguimos adotar com segurança e consistência – e muito amor e paciência – esta maneira de lidar com as crises de “malcriação” do Samuel que tudo se clareou. Em pouco tempo ele reduziu significativamente os chutes e beliscões, embora os xingamentos (“bobo”, “idiota”, “eu não gosto mais de você”, “você não pode entrar mais no meu quarto”, “vai embora desta casa”) ainda apareçam. Considero um avanço: do corpo, para a palavra. E mesmo os xingamentos estão ficando mais escassos e menos raivosos.

Tudo isso sem castigos, nem punições, nem ameaças – muito menos tapas ou palmadas, que este blog condena sem perdão 🙂 .

Solução mágica e imediata não existe – bater de volta em seu filho tampouco resolve, além de ensiná-lo que é assim que se resolvem problemas, que seu corpo não merece respeito e de todos os riscos que a experiência de apanhar na infância traz. Afora a ironia que é apanhar como “corretivo” por ter batido em alguém…

Mas com respeito, autocontrole, firmeza e a convicção de estar ajudando seu filho a superar uma fase difícil e normal, a tendência é, ao longo do tempo, melhorar. Sem quebrar nem a confiança nem a segurança da relação, ao mesmo tempo em que os ensina que há maneiras melhores de comunicar seu desagrado.

Depois me conta se a vida não fica mais leve.

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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