“Meu filho é agressivo”

Uma Amiga me escreve em desabafo, aflita por causa de seu filho de 3 anos. Há alguns poucos meses frequentando uma escola nova, lá ele “aprendeu com outras crianças” a ser “respondão”, “malcriado” e a agredir fisicamente os colegas e outras pessoas próximas. Justo ele, que era tão doce, criativo e contente. Agora parece um menino mimado e sem limites. Minha Amiga sente que está fazendo algo errado. Procura motivos – na vida do filho, na própria vida -, testa maneiras diferentes de abordar o problema (em geral de maneira autoritária, imbuída do dever moral de “moldá-lo” para a vida em sociedade), sente-se envergonhada, acredita estar falhando como mãe quando os episódios se repetem. É acometida de uma terrível dor no peito quando vê o garoto dando risada no meio daquela agressividade toda. Chega a pensamentos extremos. Teme que o filho não seja capaz de sentir empatia.

Em grupos de mães e pais nas redes sociais, a queixa se repete. Eu também sei do que ela está falando. Sei bem do que ela está falando. Também já me questionei. Também já temi pelo futuro do meu filho. Já me senti triste e impotente. Tudo isso quando nosso menino (hoje com quase 5 anos) passou a bater em mim e no pai quando contrariado, lá por volta dos 2 anos e meio.

Fato: pré-escolares (2 a 6 anos) frequentemente são agressivos e isso não necessariamente tem a ver com “falta de educação” ou de limites. Nem com problemas psicológicos graves ou maus tratos. Muitas crianças normais, que vivem em ambientes familiares e escolares cheios de atenção e amor, apresentam comportamentos violentos contra outras crianças ou adultos. Xingamentos, tapas, chutes, beliscões, objetos que voam ao chão, demandas em tom autoritário em momentos de irritação: nada disso é indicador seguro nem de problemas psicológicos graves da própria criança, nem de maus tratos, nem de que os pais são um fracasso como educadores. Mas apenas fruto da imaturidade, da incapacidade de controlar os impulsos típicas da idade.

Claro que, se uma criança muda bruscamente de comportamento, vale a pena olhar com cuidado se há algo se passando que possa ser desencadeante: ambientes  ou cuidadores novos, separações, chegada de um irmão, morte de um parente… Porém, para algumas crianças nesta faixa de 2-6 anos, mesmo os desafios normais da vida cotidiana podem bastar para que o sofrimento seja expresso através da brabeza e da raiva.

Aos 3 anos, pode ser muito difícil suportar a realidade de que hoje o copo verde está sujo e que é preciso tomar água no amarelo.

A eles, faltam repertório, vocabulário e capacidade para expressar o que estão sentindo.

Aliás, eles mal sabem nomear o que estão sentindo. Toda a gama de sentimentos ainda é uma massa confusa que não se liga a palavras específicas (medo, angústia, frustração, raiva, ira, tristeza, surpresa…). Mesmo nós adultos eventualmente temos dificuldade identificar o que sentimos e conectá-lo ao seu nome, não é? E se os pré-escolares não podem nomear, tampouco podem racionalizar e controlar o que está acontecendo em seu corpo (os eventos neurobiológicos e hormonais que desencadeiam as expressões da frustração e da raiva).

O punho que acerta em cheio a cabeça do colega que lhe roubou o brinquedo é mais rápido e eficaz do que a língua a articular um argumento de defesa educado e socialmente desejável. É preciso que haja condições especiais (apetite e sede saciados, noite bem dormida, fralda seca etc etc etc) e uma complexa sequência de eventos no cérebro infantil para que a frase “Você pode por favor me emprestar o carrinho?” entre em campo!

Em sua caminhada rumo à vida adulta, eles irão também continuamente lutar por autonomia e independência; em algumas fases se sentirão super fortes, confiantes e capazes (ah os quatro anos…), mas estão ainda muito longe de ter as funções executivas e o controle dos impulsos maduros. Estão apenas iniciando a navegação pelo mar das relações sociais fora da vida familiar (e nós sabemos muito bem como, até o fim de nossas vidas, jamais deixaremos  de aprender com o Outro). Devagar e por meio da repetição, farão, como pequenos cientistas, observações sobre causa e efeito nas relações com outras crianças e com os cuidadores. Obviamente, haverá testes e experimentos: “eu bati, ele chorou. Se eu bater de novo, será que vai chorar de novo? Olha, chorou de novo!  Que interessante!” ou “Hahaha que divertido! Consegui fazê-lo chorar!” (O riso não é sinal de desprezo à dor do outro, mas de satisfação com a própria conquista.)

Há também os experimentos com o poder das palavras: os xingamentos cujos significados nem são plenamente compreendidos, mas o impacto que eles causam, sim. Ou expressões verdadeiramente violentas: “vou matar a Clara com uma pedra”. (Já ouvi isso e quase entrei em pânico.) “Quero que vc morra.” “Vou chamar um caçador pra atirar nele.”
(O quão pleno é seu entendimento sobre a fatalidade da morte?)

Estes experimentos com a própria força, com a força das palavras, nada têm a ver com falta de empatia. Um estudo de 2003, com 99 crianças de 2 anos divididas em dois grupos quanto a comportamentos externalizantes/agressivos, concluiu que o grupo das agressivas demonstrava mais atitudes empáticas nos testes realizados do que o outro. Alguns resultados obtidos sugeriam que, aos 2 anos, uma maior capacidade de regulação fisiológica (ou seja, mais autocontrole) se relacionava a menos comportamentos empáticos.

Então, Amiga, o que eu quero te dizer é: relaxe. Ele só tem 3 anos e, aos 3 anos, as pessoas são assim. Olhe lá na frente, a longo prazo. Seu menino está vivendo e experimentando tempestades de emoções e é através delas – e com sua ajuda – que ele vai aprender a se relacionar com o mundo de maneira melhor e mais aceitável. Que vai desenvolver auto-controle e empatia pelos outros. Voltarei a te escrever. Para contar como foi que o problema aqui se resolveu. Tem solução – e ela depende mais de você, da sua atitude, do que da severidade dos castigos e punições.

Um abraço solidário!

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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