Mais provas contra os efeitos nocivos das palmadas

Deu ontem no Science Daily: mais um artigo científico, publicado agora no mês de abril no Journal of Family Psychology, comprova os efeitos deletérios das palmadas. E não é qualquer artigo: segundo os autores, a maior metanálise já realizada sobre o assunto, cobrindo 50 anos de pesquisas e envolvendo um conjunto de mais de 160 ooo crianças. É também o estudo que melhor isola os efeitos das palmadas, separando-os de outros tipos de punição física.

No estudo, realizado por Elizabeth Gershoff, psicóloga do desenvolvimento e professora associada da Universidade do Texas em Austin, e por Andrew Grogan-Kaylor, da Universidade do Michigan, o termo pesquisado, “spanking”, foi definido como dar tapas com a mão aberta nas nádegas ou extremidades. A velha palmada. Um método de punição que é utilizado desde tempos imemoriais no trato com crianças e, segundo a Unicef (2014), ainda aplicado por 80% dos pais ao redor do mundo. Mas que, no entanto, é considerado medida disciplinar, não sendo encarado pelos seus adeptos como abuso físico.

Esta visão deveria mudar. O estudo de Gershoff e Grogan-Taylor demonstra que a palmada está associada a efeitos deletérios não desejados e NÃO se associou a mais obediência (compliance) no período imediato, nem a longo prazo – que é o que os pais esperam. Dos dezessete efeitos pesquisados pela dupla, treze tiveram associação significativa com a prática das palmadas, todos na direção de causar prejuízos às crianças. Alguns exemplos: comportamento desafiador, agressividade, dificuldades cognitivas e problemas mentais.

Foram testados alguns efeitos de longo prazo também, entre adultos que apanharam quando crianças: quanto mais apanhavam, maior a probabilidade de apresentarem comportamentos anti-sociais e transtornos mentais, além de maior chance também de defenderem o uso da punição física como método educativo, ou seja, transmissão intergeracional do comportamento. Estes efeitos, o estudo conclui, são semelhantes aos efeitos do abuso físico, ainda que num grau mais leve.

Não tive (ainda) acesso à íntegra da publicação. Porém em 2013, a prof. Gershoff publicou um artigo que faz um apanhado dos achados de suas pesquisas anteriores (também envolvendo metanálises) sobre o tema. Segue um resumo:

1) Palmadas não são eficazes nem efetivas: quando os pais dão uma palmada, quais suas expectativas? Normalmente, querem punir um mau comportamento e reduzir sua recorrência na hora, mas também pretendem aumentar a chance de bom comportamento no futuro. No entanto, em comparação ao “time out” (ir pro cantinho de castigo), a palmada não é mais eficaz; a obediência a longo prazo também não pode ser demonstrada – ao contrário: as palmadas se associaram a menor grau de obediência a longo prazo e menor grau de consciência sobre os próprios atos.

2) Agressão: comportamentos agressivos das crianças são dos que mais levam os pais a recorrer à punição física, porém palmadas definitivamente não reduzem comportamentos agressivos nas crianças. Em todos os 27 estudos analisados pela autora até então, crianças que apanham se tornam, ao longo do tempo, MAIS e não menos agressivas.

3) Palmadas se associam a vários efeitos colaterais negativos: mais problemas mentais na infância e vida adulta, comportamento delinquente na infância e criminal na vida adulta, relações pais-filhos prejudicadas, maior risco para a criança de sofrer abuso físico. Estes efeitos negativos são semelhantes em diferentes culturas.

O assunto dá pano pra manga e merece muita atenção. O Brasil, tendo promulgado há dois anos a Lei da Palmada (Lei n. 13.010, de 26 de junho de 2014), é um dos atualmente 49 países que proíbem a prática. A Suécia foi o primeiro, em 1979. Mas o caminho a percorrer ainda é longo… Resta-nos fazer barulho para conscientizar mães, pais e outros cuidadores da importância de uma educação sem castigos físicos e de oferecer outras alternativas para a criação de famílias em que imperem o respeito e o bem estar. Elas existem!

UPDATE 27. Abril 2016: Finalmente pude ler o artigo, que me foi gentilmente cedido pela própria autora 🙂
Eu estava curiosa para saber quais efeitos haviam sido analisados, quais tiveram associação com a prática das palmadas e quais não.
Entre as crianças, levar umas palmadas se associou a:
– Baixa internalização moral
– Agressividade
– Comportamento anti-social
– Comportamento externalizante (termo da psiquiatria que agrega comportamentos como agressão, delinqüência, violência, hiperatividade)
– Comportamento internalizante (termo da psiquiatria que se refere às depressões, ansiedades, abuso de substâncias, automutilação)
– Problemas mentais
– Relações negativas entre pais e filhos
– Prejuízo de habilidades cognitivas
– Baixa autoestima
– Maior probabilidade de ser vítimas de abuso físico
Porém não se associou a:
– Comportamento desafiador imediato (o grupo de crianças em que este outcome foi avaliado era muito pequeno, impedindo a conclusão sobre a associação que fora observada em outros estudos)
– Abuso de álcool ou outras substâncias, tanto de crianças quanto de adultos
– Baixa auto-regulação

“A associação entre palmadas e efeitos negativos não dependeu de como a palmada foi avaliada (por pesquisadores), quem reportou as palmadas, o país onde o estudo foi conduzido ou a idade das crianças alvo do estudo. (…) Estudos com melhor desenho metodológico identificaram o mesmo risco para efeitos negativos que estudos metodologicamente mais fracos, sugerindo que a associação entre palmadas e efeitos sobre as crianças é robusta.”

Ainda que a associação causal entre palmadas e os efeitos analisados não possa ser concluída desta metanálise, é preciso lembrar que estudos que a comprovem são muito difíceis – senão impossíveis – de ser realizados, devido a evidentes limitações éticas.

https://www.sciencedaily.com/releases/2016/04/160425143106.htm

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3768154/

Anúncios

Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s