Adele é uma mãe de respeito

Então Adele, a cantora, passeou com seu filho de 3 anos trajando o vestido da Anna (Frozen) pela Disney e houve, segundo o texto do Daniel Martins de Barros, colunista do Estadão, um “bafafá”. Nas redes sociais, num dos grupos virtuais de mães de que faço parte, a discussão foi intensa. Adele é exibicionista? Está usando o filho para levantar bandeiras? Obrigou-o a sair assim, já que aos 3 anos ele é pequeno demais para ter tido vontade de se vestir com uma fantasia de princesa? Ou o contrário, foi permissiva e deixou de impor  limites para um desejo do menino que é inadequado e não pode ser estimulado?

Ficou patente que, mesmo entre mães esclarecidas, confunde-se muito entre o que é fantasia infantil, identidade de gênero, orientação sexual,  e que nós adultos projetamos demais nossos próprios medos e preconceitos sobre nossos filhos.

Eu admirei a atitude de Adele. Acho impensável que ela o tenha OBRIGADO a vestir a fantasia de princesa a contragosto, até porque como artista ela tem sido uma espécie de role model em se assumir como se é. Vi em sua postura relaxada e descomplicada uma mãe que respeita o filho que tem.

E que filho ela tem? Um filho… normal! Ao menos, não existe nenhum motivo até o momento para avaliar que não seja assim.

Criança é criança: eles experimentam através de fantasias e brincadeiras vários papéis ao longo da infância. Sim, já aos 3 anos de idade. Até antes, às vezes. E, não fossem as famílias impedindo que meninos saiam na rua fantasiados de princesa ou fadinha, veríamos que garotos brincando de exercer papéis femininos é bem mais comum do que pensamos. (Para as meninas, que podem tanto usar saia quanto calça ou shorts, as coisas têm sido mais fáceis neste sentido.) Só para ilustrar: no Kindergarten do meu filho (atualmente com 20 crianças), há dois que com freqüência se vestem com saias, tiaras, roupas de princesa, sapatos e personagens femininos. Um deles, o de 3 anos, várias vezes por semana. O outro, de 5, em alguma ocasiões especiais. No último Carnaval, uma das meninas (6) estava com uma roupa de mágico, com bigode e barba. Mas no Carnaval até os adultos podem, não é?

Um pré-escolar brincar de se vestir “de menina”, ou uma menina escolher se fantasiar de policial de vez em quando (ou mesmo com freqüência) não é o que irá determinar nem sua identidade de gênero, nem sua orientação sexual. Elas estão apenas exercitando, praticando a diversidade de papéis sociais, de símbolos, experimentando com sentimentos e conceitos abstratos  (a autoridade e a coragem do policial, a força da super-heroína, a fragilidade da borboleta…as possibilidades são ilimitadas e os símbolos envolvidos podem estar, inclusive, a quilômetros de distância do que nossa imaginação pobre e viciada de adultos supõe). São maneiras de apreender e compreender o mundo ao redor. Julgar que este tipo de brincadeira é inadequado fala mais sobre quem julga do que sobre a brincadeira em si.

Mas será que o filho de Adele pensa que é, ou quer ser menina? Tão pequeno, já tem idade para escolher? Bem, crianças transgênero existem. Aliás, nesta semana, uma garota de 5 anos tornou-se a mais jovem brasileira a ter o direito de ser identificada como do outro gênero. Crianças transgênero (ou melhor, com disforia de gênero, o nome utilizado nas classificações psiquiátricas) existem, mas não necessariamente pré-escolares que se fantasiam do “gênero oposto” serão assim classificadas. Muito pelo contrário: crianças com DG são uma minúscula minoria. Destas, apenas uma fração pequena se tornará adultos trans. E provavelmente nenhum deles fez uma ESCOLHA livre quanto a se sentir completamente desconfortável habitando o corpo com que vieram ao mundo – que dirá as crianças afetadas. O emblemático caso de Bruce Reimer, que, com 1 ano e 7 meses, numa complicação cirúrgica, perdeu seu pênis e foi a partir de então criado como menina – seguindo a teoria de que basta a criação para se mudar a identidade de gênero de alguém – evoluiu para uma seqüência de tragédias, culminando em suicídio. O que me faz pensar que identidade de gênero, mesmo nos casos em que há discordância entre o gênero sentido e o atribuído pelos cromossomos sexuais, é uma força da natureza. E há pouco o que se possa fazer para mudá-la genuinamente.

Ou seja, não é deixando o moleque se vestir de bailarina quando quiser que ele se tornará confuso quanto a seu gênero. Qual o problema então? Bem, o preconceito claramente existe. No entanto, para além da limitação de experiências, para além da projeção de fantasmas que pertencem aos adultos, cabem aí também algumas reflexões éticas sobre o significado de negar a fantasia. Eu penso, e é um valor importantíssimo que eu trago como mãe, que deixar nossos filhos livres para ser quem são e se mostrar ao seu lado para enfrentar preconceitos desvelados em olhares enviesados, comentários inadequados e julgamentos precipitados é uma forma de demonstrar amor incondicional e estimular a autonomia (de pensamento), a independência (do julgamento alheio) e a liberdade (de escolha). Alguns impedimentos que fazemos em nome de proteger contra o preconceito podem apenas ensiná-los o conformismo e que agradar aos outros é mais importante do que à própria natureza e o próprio desejo. É isso o que queremos?

Isso não significa que seja fácil ou que eu mesma não tenha meus medos, meus preconceitos, minhas lutas internas e minhas preocupações. Mas às vezes é preciso escolher entre enfrentá-los em nome dos valores mais elevados que me imponho na minha tarefa de mãe, ou sucumbir a eles
Amar o filho ideal é fácil. Quero ver é amar o filho real.
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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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2 respostas a Adele é uma mãe de respeito

  1. mermarchiori diz:

    Minha filha adorei o seu texto e voce não poderia fechá-lo com melhor frase. Beijo

    Enviado do tablet Samsung

  2. Roland Scialom diz:

    Em cada sociedade existe uma dinâmica à qual os educadores tem que estar atentos. Do lado do Islã, há lugares onde os papeis são definidos de tal forma que eles matam, jogando pelo terraço – os jovens que não se encaixam no papel de “homem” definido nas suas escrituras santas. Nesses lugares não há nenhum espaço de manobra para ninguém, crianças, jovens e seus educadores.
    Do lado do ocidente, há um certo laxismo que dá algum espaço de manobra para os que não se encaixam nos papeis canônicos de homem ou de mulher e seus educadores. Mas os preconceitos estão presentes na maioria dos lugares, incluindo igrejas evangélicas, e esses preconceitos prejudicam a vida dos que não se encaixam nos papeis canônicos. Nesse ambiente laxista, é preciso ser inteligente e cauteloso para evitar que crianças e jovens saiam prejudicados. Não existe método, ou “marche à suivre”, para lidar com o ambiente, precisa ser sobretudo inteligente e cauteloso. Estou me referindo à inteligencia emocional, claro.

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