Acabou-se o que era o Doce

Nunca conheci o Rio Doce. Este rio que percorria 850km da Serra da Mantiqueira ao Oceano Atlântico, que definiu a história e a economia de Minas Gerais, está morto, soterrado sob lama tóxica, após o rompimento de barragens da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela maior mineradora do mundo, BHP) .

12208300_897006943681235_213513167709648758_n
Mariana Filgueiras publicou no Globo hoje uma coletânea de lembranças da presença do Rio Doce na literatura e no cancioneiro nacionais, numa homenagem póstuma. Sobre ele, Carlos Drummond de Andrade escreveu em 1984:

Lira Itabirana

I.
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III.
A dívida interna.
A dívida externa.
A dívida eterna.

IV.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Sem berro?

Rios definem cidades, países, a história, constróem civilizações, determinam culturas. Paulistana que sou, os rios da minha vida sempre estiveram mortos, fedendo, atrapalhando o trânsito. O córrego que passava por Moema e em 1985 inundou nossa escola foi parar debaixo do concreto, de prédios de apartamentos.

Outros ríos eu não tive, conheci São Félix do Araguaia quando estive por um período curto entre os Karajá alguns anos atrás e vi como suas águas banhavam, inundavam, alagavam, transbordavam sua cultura: fonte de vida e de morte, não há possibilidade de ser Karajá sem a existência do Araguaia.

Até que vim morar à beira do Danúbio, aqui em Ulm, Alemanha, onde meu filho nasceu e sempre viveu. Vejo sua relação de amor com o Donau (nome alemão) e fico por isso especialmente tocada ao pensar em um rio maltratado, que dirá morto de maneira tão bruta e violenta.

Donau cascalhos

O passeio preferido nas tardes de sol (ou chuva, tanto faz) do menino é andar de bicicleta na beira do rio. Da Metzgerturm até o outro lado, atravessando a ponte de onde se pode ver o rio Blau (quase um córrego) desaguando nas águas maiores, quando ele invariavelmente comenta: o Donau é o mar para o Blau. Parar em frente ao clube de remo, num ponto onde cascalhos se acumulam e de onde os remadores partem com seus caiaques e canoas, para jogar pedras. Saber, aos 4 anos, da nascente e da foz: que ele vai até o Mar Negro e, de lá, para o Mar Egeu, até o Mediterrâneo. Criar inclusive sua própria geografia – misturadas ao Mediterrâneo, suas águas também banham um país chamado Sovacolândia, que faz fronteira tanto com a Grécia quanto com o Brasil. Um rio habitando as brincadeiras, as conversas, a cosmogonia própria do menino.

E olha que o Danúbio é um rio urbano, domesticado, de margens estudadas, controladas e aproveitadas em cada centímetro de sua existência. Não oferece perigo, praticamente. Sua água é gelada, sua fauna é mansa. A cada dois anos, um festival cultural se realiza às suas margens aqui em Ulm, numa iniciativa para estabelecer uma cultura de paz entre os dez países atravessados por ele.
Donaufest

O Doce não devia ser assim domesticado; imagino-o muito mais caudaloso, selvagem, com sucuris, piranhas, onças pintadas bebendo à sua margem, os casebres, as vacas leiteiras, as cabras, a pescaria, as árvores frondosas, bichos e plantas da Mata Atlântica. Imagino quantas histórias, lendas e brincadeiras não foram criadas, quantas canções anônimas e poemas mal ou bem feitos inspirou. Um rio brasileiro, de águas refrescantes e cheias de perigo, vida, graça e aventura. Na Europa não tem rio assim.

Daqui de longe, fico triste por ver seu fim, ainda mais assim, debaixo de um tsunami criminoso de lama podre. Toda a região está hoje incompatível com a vida. Sem água, inundada pelo cheiro de carniça e peixe morto, contaminada por substâncias tóxicas que se infiltrarão pelo solo, água e ar por gerações. Suponho que as pessoas precisem ser retiradas de lá com urgência, ou haverá risco iminente de doenças e morte em massa. Um apocalipse local, que o poder público e a Samarco não têm encarado com a gravidade e seriedade que merece.

12194520_933209763420967_7529994429800355293_o(Foto: Leonardo Merçon)

Era uma vez o Doce, um ex-rio brasileiro, tragicamente brasileiro.

A esperança: um grupo de cientistas diversos e outros voluntários está se organizando para arrecadar fundos e unir esforços para preparar um relatório independente de impacto ambiental e divulgar informação, indo a campo e se utilizando das mídias sociais neste intento. Para ajudar, foi organizado um crowdfunding (clique aqui) e um grupo no Facebook para coordenação das ações.

Para doar mantimentos, roupas ou dinheiro, entrem no site da Prefeitura de Mariana aqui.

Anúncios

Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s