Parem. Apenas PAREM de humilhar crianças na internet.

Nos últimos dois dias, um triste vídeo filmado dentro de uma escola municipal no Rio de Janeiro alastrou-se pelas redes sociais. Nele, vê-se um garoto, identificado nesta reportagem como tendo sete anos de idade, derrubando os móveis e objetos de uma sala, ao mesmo tempo em que é tratado com sarcasmo e raiva pelos funcionários da escola. “A gente não pode bater nele, a gente não pode segurar ele”, diz uma voz feminina sem esconder o desprezo. “Isso, tomba”, a mesma voz ordena com ironia. Ao fim do vídeo, os adultos – VÁRIOS – dizem que chamarão os bombeiros e a polícia.

Resultado: milhares de comentários de ódio contra o menino, questionando os pais, sugerindo castigos físicos e vaticinando um destino trágico de delinquência. A minoria questionou a atitude dos funcionários da escola. E quase ninguém se lembrou de que este a existência e divulgação deste vídeo configuram crime.

Gente, estamos falando de uma criança de sete anos, aluno do primeiro ano do ensino fundamental. Iniciou a vida escolar há menos de um ano. Segundo a  reportagem acima, “não há registros de problemas anteriores com esta criança.” Como pode que, em tão pouco tempo, os responsáveis por cuidar e educá-lo tenham optado por tamanha violência na abordagem de um problema de comportamento? Será que houve, ao longo dos últimos meses, algum esforço realmene interessado do corpo de funcionários para tentar estabelecer uma conexão mínima, mas real, com ele, antes de optar pela medida extrema de humilhá-lo publicamente?

Será que este menino pode confiar em algum adulto que trabalhe neste estabelecimento público de ensino?

Crianças têm ataques de raiva, frustração, desespero, medo… Todo mundo sabe disso. Ainda assim, num fenômeno que eu não consigo entender nem explicar, o senso comum espera delas que, desde a mais tenra idade, saibam se controlar, até mais e melhor do que muito adulto por aí, e apenas se expressem dócil e calmamente através de palavras. Além, claro, de que aceitem com a maior mansidão toda e qualquer situação ou ordem estabelecida pelos adultos. Como se fossem robôs ou poodles amestrados.

Como se a neurociência não tivesse já demonstrado que o amadurecimento das habilidades de controle dos impulsos se dá numa fase muito mais tardia do desenvolvimento – e que isto depende em grande medida das experiências vividas na infância.

Enfim. Um menino inicia um ataque de raiva por motivo desconhecido a nós, expressando-a através do seu corpo. Ninguém tenta pará-lo. Ninguém se abaixa à altura dos seus olhos. Ninguém tenta conversar com ele mantendo domínio pleno do papel de autoridade, no intento de conduzir a situação para uma solução pacífica para todos e pedagógica para a criança. Ninguém o enxerga como um aluno precisando de orientação e ajuda. Só lhe resta, mesmo, responder ao clima de violência física iminente e humilhação moral que os adultos ao redor estabelecem. Ou alguém espera que ele, apesar de ter força para derrubar um banco, seja capaz de se proteger da incitação manipulatória que vemos se armar ao seu redor?

Uma criança, para aprender a expressar sua frustração e sua raiva de maneira socialmente apropriada, precisa de tempo, maturação neurológica e de exemplos de como fazê-lo. Precisa, acima de tudo, de relações profundas, de confiança, com seus cuidadores. Crianças aprendem a respeitar quando são respeitadas, ou seja, quando experimentam, através de seu corpo e suas vivências cotidianas, o mesmo respeito. E este é um conceito abstrato; para ser aprendido, precisa ser vivido na pele de pessoa respeitada. E, como se sabe, não é coisa que se imponha, mas que se conquista – inclusive em se tratando de crianças.

Cuidado: não estou, de maneira nenhuma, propondo aqui a substituição da família ou livrando os pais de sua responsabilidade primordial. Todos sabemos que professores da rede pública convivem diariamente com violência real nas escolas. Alunos portando armas, tráfico de drogas, agressões diversas de pais e alunos, além da injusta desvalorização da profissão. Nada disto, porém, justifica o que se vê no filme. Pois se não lhes cabe substituir a família no ensino de valores, sem dúvida espera-se de professores que estabeleçam relações respeitosas e construtivas com seus alunos.

Quanto a sua família – não tenho o que comentar. Não conheço o contexto familiar deste menino. Posso especular: será que ele já teve a oportunidade de aprender a se controlar? Será que teve exemplos positivos? Ou será que ele, neste episódio, reproduz o que vê nos ambientes que convive? Ou mesmo na televisão? Será que é um menino que tem algum tipo de doença mental, diagnosticada ou não, que se manifeste com aumento da agressividade e pior controle de impulsos? Eu não sei – e portanto não posso julgar.

Mas posso observar que professores, que são os responsáveis pela proteção dos seus alunos, quando empunham uma câmera de vídeo feito arma e proferem palavras em tom agressivo e manipulador contra um menino indefeso, praticam abuso de autoridade e expõem de maneira inequívoca seu despreparo para a profissão. Serão agora submetidos a inquérito para apuração dos fatos. É o mínimo que se espera.

Afinal, a própria realização deste vídeo e compartilhamento na internet configuram crime.

Uma olhada por cima no Estatuto da Criança e do Adolescente e rapidamente identificamos a violação de um punhado de artigos. Vou mencionar só um, a título de exemplo:

“Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”

Enfim, filmar uma criança em crise e submetê-la a escrutínio público, a ataques de ódio e ameaças é, no mínimo, ferir sua dignidade. Um vídeo destes, reproduzido à exaustão pelos próximos anos (exceto se for retirado do ar por ordem judicial), é capaz de selar um destino. E, dos alto de seus sete anos, esta criança tem (ou deveria ter) a oportunidade de aprender, através de exemplos positivos e de palavras certas de cuidadores respeitosos, como lidar com emoções negativas e aumentar progressivamente sua capacidade de regular impulsos agressivos.

Precisamos começar a cuidar mais de nossas crianças. Falta-nos o senso de que cuidar das crianças alheias, mesmo das desconhecidas, é apostar e investir no capital humano do futuro. Quando reproduzimos ou compartilhamos material que as expõe vergonhosamente, estamos contribuindo para seu linchamento moral.  Participamos do crime.

Chega de humilhar crianças na internet. O respeito e a dignidade de todas as crianças devem ser objeto de zelo de todos nós.

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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