Um lugar no táxi, uma ponte construída

“My father believed that confidence was the most important thing you could teach a child. Even when I was little, he would do things to make me feel important. One of my earliest memories is a taxi driver asking my father to put me on his lap, so he could fit one more passenger. But my father insisted that I deserved my own seat. He’d bring me to work with him and trust me with jobs. He’d take apart mechanical devices and ask me to reassemble them. If I made a mistake, he’d never punish me. He’d even help me hide my report card if I made a bad grade. He was mainly concerned with building my confidence to attempt new things, so that I could always learn by doing. Now as an adult, people call me crazy for attempting things that seem ‘out of my depth.’ This bridge is one example. Nobody is prouder of this bridge than my father. He collects all the newspaper articles.”

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Leila Araghian and Alireza Behzadi are the young designer and builder behind Tehran’s recently completed Tabiat Bridge. Construction of the bridge was completed in 2014 despite the difficulties of international sanctions. The bridge has become a cultural and physical centerpiece of Tehran, and Leila captured the imagination of the architecture world by winning the right to design it at the age of 26.

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(Tehran, Iran)

A publicação do Humans of New York, site do excelente entrevistador e retratista urbano Brandon Stanton, trouxe hoje um depoimento de um iraniano que me comoveu demais. A fala de Alireza Behzadi sobre seu pai condensou em poucas linhas um novo modelo de maternidade/parentalidade que tenho buscado e procurado exercer, em que um dos principais “resultados” sonhados é este: o de gerar um filho confiante e autônomo. Mas também um adulto que leva dentro de si valores engendrados dentro da família.

Posso escrever um texto enorme sobre cada aspecto da fala dele em que identifico um valor ou conceito que eu tento aplicar à minha relação com meu filho. Porém os que mais me capturaram minha simpatia e admiração foram o exercício da confiança e do respeito. Este pai é um sábio.

Como ajudar meu filho a se tornar uma criança, um adolescente, um adulto confiante? A resposta que encontrei nas minhas andanças pela maternidade o pai deste rapaz iraniano já sabia de velho: confiando.

É preciso – e vale a pena – CONFIAR.

Confiar nas capacidades de nossos filhos. Em seu interesse genuíno em aprender e se desenvolver. Confiar na nossa relação de mãe, pai e filho(a). No exercício consciente da maternidade, confiar. Crer que só desta maneira poderemos ajudar nossos filhos a desenvolver sua própria autoconfiança.

E também respeitar: seu corpo, os estágios de desenvolvimento, sua individualidade, suas escolhas.

Parece simples, não? Na tradução dos desejos para os atos cotidianos da parentalidade, nada é tão simples. Uma vontade expressa em palavras pode jamais se cumprir, se nos detalhes aparentemente banais do dia-a-dia não houver atenção e controle para unir o conteúdo das palavras às ações. Pois que as crianças aprendem a partir do nosso modelo e da relação que construímos com elas. Elas nos observam, nos ouvem, nos miram o tempo todo quando estamos juntos. E quando não, recriam em suas imaginações e fantasias tudo aquilo que apreenderam e aprenderam conosco. E é assim que, na continuidade e na repetição dos cuidados e contatos, este sentimento de segurança (assim como todos os outros) vai se formando, se fundando, fixando, sedimentando-se como integrante da personalidade.

O que é um lugar próprio no táxi lotado? Frescura, mimo de pai? Na memória afetiva do homem, tornou-se símbolo de valorização, de confiança em sua individualidade e respeito por seu corpo e, portanto, pelo que ele representa para a criança: a pessoa inteira. Símbolo de cuidado e merecimento de um espaço que é único.

Porém cuidado: é possível fazê-lo sem que isso signifique “mimar” na acepção ruim da palavra, a de produzir um reizinho mandão. Eu acredito até na escolha de vias que evitam a punição como forma de educação. Controverso, sim… Sobre as alternativas a punições (as conseqüências naturais), escreverei outra hora. Por ora, observemos que este pai dedicado também incentivou, desafiou e permitiu que o filho assumisse responsabilidades. Atos de amor dedicado. Eu acredito que são maneiras válidas de chamar o filho para o caminho do destemor responsável. É este que eu quero que meu filho siga também.

Sem dúvida, no entanto, tudo isso só vai funcionar se houver o estabelecimento de limites firmes e claros. Mas deixo também esta conversa para outro dia.

O resultado foi este aí. Um rapaz capaz de sonhar, de não se intimidar com as opiniões alheias negativas e também de ser grato. Parabéns, pai. Parabéns, Alireza Behzadi. Por todas as pontes que vi construídas nesta história.

Tradução livre do texto do HONY:
“Meu pai acreditava que autoconfiança era o que de mais importante se poderia ensinar a uma criança. Mesmo quando eu era pequeno, ele fazia coisas para que eu me sentisse importante. Uma das minhas memórias mais antigas é um motorista de taxi pedindo ao meu pai para me colocar em seu colo, para que coubesse mais um passageiro. Mas meu pai insistiu que eu merecia meu próprio lugar. Ele me levava ao trabalho com ele e confiava tarefas a mim. Ele abria aparelhos eletrônicos e me pedia para montá-los novamente. Se eu cometesse um erro, ele nunca me punia. Ele inclusive me ajudava a esconder meu boletim se eu tivesse uma nota ruim. Ele estava principalmente preocupado em me tornar confiante em tentar coisas novas, para que eu sempre aprendesse fazendo. Agora já adulto, as pessoas me chamam de louco por tentar coisas que parecem grandes demais para mim. Esta ponte é um exemplo. Ninguém está mais orgulho desta ponte do que meu pai. Ele coleciona todos os artigos de jornal.”
 
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Leila Araghian e Alireza Behzadi são os jovens arquiteta e construtor da recém erguida Ponte Tabiat, em Teerã. A construção da ponte terminou em 2014 apesar da dificuldade das sanções internacionais. A ponte se tornou uma peça central física e cultural de Teerã, e Leila capturou a imaginação do mundo da arquitetura ao ganhar o direito de desenhá-la à idade de 26 anos.
 
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(Tehran, Iran)
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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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