No que rapidamente penso quando vejo Mallu e Camelo

Eu não sei bem como começou, nem por quê, já que eles estão juntos há anos. Mas notei por aí pela internet uma profusão de textos debatendo sobre a legitimidade da relação entre Mallu Magalhães e Marcelo Camelo.

Não li todos eles, tenho andado apressada, porém este aqui me deixou, por algumas razões, satisfeita. O motivo principal foi a coerência em dar nome a outros bois: Caetano Veloso e Woody Allen e a suspeita de pedofilia que recai sobre eles.

É duro, porque eu admito, assumo e confesso que amo as músicas e a sensibilidade do primeiro e as assumidas neuroses do segundo. Mas é para mim insuportável a ideia de que Caetano tinha 40 anos quando pegou Paula de jeito – aos 13. Fico me perguntando inquieta: e os pais dela? Onde estavam? O que se passou nesta relação absurda? Tenho discos, já fui a show; hoje, mãe, tenho dificuldades sérias em esquecer esta história. Mesmo sabendo que Paula Lavigne é hoje uma adulta que jamais questionou em público (até onde sei) as peculiaridades de seu relacionamento com o ex-marido, que durou umas duas décadas.

Quanto a Woody Allen, ainda que nada se tenha comprovado, eu tendo a acreditar no relato da filha Dylan, que o acusa abertamente de abuso sexual. Porém, diferentemente dos casos de Mallu e Paula, Dylan teve o apoio público da mãe.

Tem-se condenado a atitude de Marcelo Camelo por escolher uma adolescente catorze anos mais nova como namorada. Tem-se dito que Mallu não teria condições verdadeiras de decidir. O que está faltando, assumindo que esta última sentença seja verdadeira, é questionar os pais de Mallu. Legalmente, não houve estupro. Diz-se que ela era emancipada à época. Ainda assim, se se considera que aos dezesseis anos uma menina não seja capaz de escolher seu parceiro amoroso, talvez isto seja um clamor por uma relação familiar, entre pais/mães e filhas adolescentes, em que haja mais intervenção, presença, diálogo, orientação e controle dos pais?

Do mesmo modo, coloco-me no lugar da mãe do músico e fico imaginando que me sentiria bastante frustrada se meu filho, já homem, não fosse capaz de se relacionar com mulheres de idade e maturidade equivalentes à que se espera para sua idade cronológica. Porém a reflexão sobre as maneiras de educar um menino para que não se torne nem um machista bobo imaturo, nem um abusador, um agressor, é extensa e não vai caber neste texto rápido, escrito de sopetão, num momento de procrastinação e urgência.

Assunto muito importante pouco (ou nada?) debatido no Brasil e que a relação Mallu-Marcelo levanta é este: o casamento de crianças e adolescentes. Segundo a iniciativa internacional Girls Not Brides, que combate e procura prevenir o fenômeno do casamento de menores de 18 anos, o Brasil está em quarto lugar no mundo em números absolutos.

O fenômenos é mundial. Atinge maciçamente meninas (ainda que também afete meninos, numa proporção de 6 a 72 vezes menor, dependendo do país). Perpassa diferentes culturas –  África, América Latina, sul da Ásia destacam-se no mapa como mais atingidos. Pobreza (“uma boca a menos na família”), tradições (o fascínio mitológico exercido pela virgindade), insegurança (um marido, mais velho, eventualmente protegerá a menina de ataques físicos e sexuais) e questões de gênero são as principais motivações para a tolerância – e até estímulo – a que crianças, muitas vezes aos oito anos de idade ou menores, sejam levadas ao altar.

As conseqüências são diversas para a educação, saúde, produtividade, renda e liberdade destas meninas:

– Mundialmente, a maioria das gestações de adolescentes, que têm elevado risco de mortalidade para a mãe, acontece dentro de casamentos.
– Estas jovens se tornam mulheres com muito mais chance de sofrer violência doméstica e contaminação por HIV/AIDS,
– Adolescentes e crianças casadas têm muito menos acesso a educação e, portanto, ao mercado de trabalho, tornando-se, por muito tempo ou para sempre, dependentes de seus maridos e eventualmente jamais saindo do ciclo de pobreza.
– Elas amadurecem sob condições adversas, muito freqüentemente sem capacidade ou meios de conhecer ou exercer sua liberdade.

Muitos países têm leis que impedem estes casamentos – que não são cumpridas. São casos flagrantes de violações à Declaração Universal dos Direitos das Crianças. São também causa e conseqüência inequívocas de desigualdade de gênero. Vale a pena dar uma olhada na página (Girls Not Brides ).

Feminismo, machismo, pedofilia, relações intra-familiares, emancipação de adolescentes, diálogo, controle parental, como educar uma menina ou um menino para um mundo mais respeitoso e menos violento, casamento de crianças. Até que a hitória Mallu-Marcelo dá o que pensar.

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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