Nosso filhos e os estranhos

No Estadão de ontem,  um artigo muito bom do meu colega Daniel Martins de Barros apazigua as mães alvoroçadas com um vídeo que tem circulado no Facebook sobre seqüestro de crianças pequenas. No vídeo, um ator simula convencer algumas meninas e meninos que brincam despreocupados num playground a ir embora com ele para ver filhotinhos do cão que carrega no colo. Daniel nos lembra de que as crianças estavam sendo supervisionadas por suas mães, e que isso é o mais importante para evitar sequestros reais. Eu concordo com ele.

Ainda assim, penso que orientar nossos filhos sobre como se comportar com estranhos é possível e está ao nosso alcance como pais/educadores. Como já contei antes, aqui na Alemanha as crianças são ensinadas a andar na rua, a ir para a escola sozinhas, andam de bicicleta na rua em grupo sem adultos vigiando. Ensinadas: ninguém nasce sabendo.

De maneira geral, os alemães são mais reservados no espaço público. Ainda assim, eu vivo sendo cumprimentada na rua, no ônibus, no mercado; pessoas me abordam pedindo informações; freqüentemente adultos puxam conversa com meu filho e, mais de uma vez, já lhe ofereceram chocolates e balas. Tudo na minha frente, claro. Até porque não chegamos à fase da “independência urbana”: Samuel ainda nem fez 4 anos.

Estarei mentindo se afirmar que o tal vídeo não me incomodou. Pode ser manipulador e falacioso, mas reavivou em mim a dúvida sobre qual a melhor maneira de proteger meu filho de estranhos mal intencionados. Afinal, não é porque as ruas alemãs são mais seguras que as brasileiras que não haja lobos maus à espreita. E, sabendo que tenho de prepará-lo desde cedo para uma vida independente na rua, o tema já era objeto de reflexão em nossa casa há tempos.

Uma coisa boa daqui é que existem livros infantis sobre quaisquer temas que se procure. Já faz meses que comprei um com uma personagem que ele gosta, exatamente sobre… abordagem de estranhos. Conni, do alto de seus 6 ou 7 anos, volta sozinha da escola para casa e se depara com uma nova obra, que interrompe a passagem pela rua que é seu “caminho escolar” – o caminho habitual que ela percorre para ir e voltar todos os dias. Um homem que ela nunca viu mais gordo oferece ajuda e tenta convencê-la a acompanhá-lo. Conni se lembra então das orientações da mamãe, e sai correndo de volta para a padaria, cuja vendedora sempre é simpática com ela. À noite, antes de dormir, o papai lê Chapeuzinho Vermelho. Conni conclui: Chapeuzinho não deveria ter ido na conversa do lobo…

Pobre Chapeuzinho – lá tem maturidade para saber? A culpa não é dela. É só do Lobo, que acabou com a barriga rasgada pelo caçador. Chapeuzinho teve de aprender pela via mais dura. Mesmo assim, confio que nossas Chapeuzinhos, nossos Joõezinhos e Marias (que se encantam com a casa de chocolate no meio da floresta) possam se guiar e se fortalecer através nossas palavras e ações. Em inglês, uma palavra que está na moda: “empowered”.

Por outro lado, realmente não gosto da ideia de que meu filho cresça temendo e se fechando totalmente para qualquer desconhecido que cruze sua vida. Seria o efeito adverso do excesso de zelo, a paranóia. Quantos encontros com desconhecidos não produzem conversas inesquecíveis, momentos sublimes, experiências memoráveis? Taí, todos os dias nas redes sociais, o trabalho genial do Brandon Stanton, do Humans of New York, que não me deixa mentir. Além disso, é o que meu filho me vê fazer diariamente: cumprimentar, trocar uma ou duas palavras sobre o tempo, informar, pedir e oferecer ajuda a gente que nunca vi antes e nunca mais verei. Não posso apenas lhe dizer: nunca fale com estranhos! Não é o exemplo que ele tem de nós.

A melhor solução que encontrei é mais ou menos o seguinte. Digo a ele: “Filho,
1) Se um adulto ou criança grande abordá-lo e você estiver conosco (papai, mamãe), tudo OK.
2) Se você estiver sozinho, não aceite nada (brinquedos, doces, convites), não entre no carro, não vá junto a lugar nenhum sem perguntar para a mamãe antes. (Isso não vale só para estranhos. Temos combinado que ele só irá de carona com alguém se tivermos conversado antes.)
3) Adultos não pedem ajuda a crianças pequenas. Um adulto só deve pedir ajuda a outro adulto. Se estiver sozinho, diga que não tem como ajudar e se afaste. Volte para um lugar seguro (padaria, uma loja, por exemplo) e avise que tem alguém precisando de socorro.
4) Adultos não pedem segredo a crianças. Não faça nada que alguém te peça para não contar para a mamãe e papai.
5) Os únicos adultos que podemos tocar suas partes íntimas somos papai, mamãe e as professoras, e apenas para limpar/lavar.”

Eu não sei – e não tenho como saber – se estas orientações serão suficientes ou não. Elas vêm sendo ditas há tempos, em ocasiões oportunas, ora aqui ora ali repetidas, sem exageros, num tom calmo mas seguro (das coisas que fazemos questão, assim como não colocar o dedo na tomada ou olhar antes de atravessar a rua).  Vão entrando devagar na memória.

É verdade, porém, que sequestradores e abusadores sabem se aproximar e seduzir crianças – e a culpa, a responsabilidade JAMAIS será delas. A nós, pais/educadores/cuidadores, sempre caberá a supervisão – e também a fé de contar com a sorte, com Deus, com o que for, porque a vida é incontrolável.
É muito difícil achar o balanço entre ensinar a malícia necessária e não incutir/nem se deixar dominar por um medo patológico. O medo… ah, está sempre rondando. Porém eu gosto de confiar que nossos meninos e meninas podem lentamente aprender sobre seus corpos e sobre as relações com os outros e a reunir elementos dentro de si que as protejam, mas também lhes permita se abrir para a vida: informação, confiança nos cuidadores, noções de auto-cuidado. E autoconfiança.

***
O blog esteve parado nos últimos meses, mas lentamente será reativado!
Um abraço e obrigada a meus leitores.

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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Uma resposta a Nosso filhos e os estranhos

  1. mariana diz:

    Bruna, o texto ficou excelente!!! Eu e meu filho de 7 anos lemos juntos, e ele imprimiu pq queria levar aos amigos para “ensinar eles a se proteger do perigo”…kkkkk!!!! Obrigada pela reflexão!

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