Tragédias ao sol

Crianças esquecidas nos carros.
Três nos últimos dias. Mortas.
O que dizer, além do que já se escreveu sobre a quebra da rotina e seus perigos, e as dicas para não esquecer do próprio filho? (Colocar a bolsa, a carteira, o celular no banco de trás, ou a sacola do bebê no banco da frente, evitar música alta que neutralize os sons da criança, ouvir um disco infantil, amarrar uma fralda ao volante…)

Um comentário, lido na respectiva matéria do blog Maternar, esbanjou sensatez: “Faltou apontar dois outros fatores: 1) o modelo automobilístico que impera no Brasil, em vez de se optar – usuários e governo – por meios coletivos de transportes e 2) O quão caro é criar filhos no Brasil, se você não quer depender do SUS e da educação pública. Isso OBVIAMENTE acaba impactando no quanto de trabalho os pais têm de fazer, para equilibrar as contas.” (da leitora Caroline Chang)

Dependência do automóvel, distâncias enormes entre casa e trabalho, trânsito insuportável, dificuldade de percorrer a cidade com um carrinho de bebê (a pé ou no transporte público), a dura rotina do trabalhador médio brasileiro nas grandes cidades, poucas horas diárias na presença dos filhos – acredito mesmo que todos estes são fatores que possam ter contribuído para as tragédias.

Talvez também o Insulfilm? Não sei se foi o caso, mas certamente a escura película evita que crianças esquecidas sejam acudidas por transeuntes, que poderiam se mobilizar, chamar o dono do veículo ou os bombeiros. Possivelmente, ele também acelera o processo de superaquecimento no interior do carro – pois o carro funciona como uma estufa: a temperatura lá dentro é invariavelmente maior do que fora.

Alguns fatos para dar toda a dimensão do risco:

1) Uma temperatura de 46 graus Celsius num ambiente fechado é fatal para crianças pequenas, que são bem mais sensíveis ao calor (sua regulação da temperatura corporal ainda é imatura). Mesmo temperaturas não tão altas podem rapidamente ocasionar desidratação grave e choque;

2) A temperatura interna de um carro sobe muito mais rápido do que se imagina:
após 5 min —-> eleva-se em 4.C
após 10 min —> eleva-se em 7.C
após 30 min —> eleva-se em 16.C
após 60 min —> eleva-se em 26.C
(em relação à temperatura externa)
Portanto, num dia quente, 
a 34.C, bastam 15 minutos para que o interior do carro atinja os fatais 46.C – e até lá, a criança já passou MUITO calor e deve estar precisando de intervenção médica.

3) Janelas um pouco abertas nem sempre são suficientes para refrescar. 

4) Ou seja: evite AO MÁXIMO deixar NÃO DEIXE seu filho – ou seu cão – sozinho dentro do veículo nem por poucos minutos. Cuide também para que crianças não tenham acesso livre ao interior do veículo sem supervisão. E mais: se vir uma criança nestas condições, ainda que com as janelas abertas, não aguarde mais do que alguns poucos minutos para tentar socorrê-la (encontrar os pais ou acionar a polícia/bombeiros).

Lembremos também que a cadeirinha do carro, com seus grossos acolchoados de material sintético, envolve o corpo da criança de maneira a não deixar o calor se dissipar.

Fatos tirados daqui,  daqui e daqui.

Garagem vazia

Uma ideia que pessoalmente acho ótima é a de escolas telefonarem quando um aluno não comparece (e os pais não entraram em contato). Não vejo isso como uma simples e fácil transferência de responsabilidade, mas como o estabelecimento de uma rede de proteção à infância. Na Alemanha, é praxe: até a polícia é acionada, caso os pais não sejam encontrados, já que muitas crianças vão a pé, sozinhas, para a escola. (Bem, aqui, os responsáveis pagam multa e podem ser condenados à prisão, caso os filhos não compareçam às aulas sem motivo médico…)

No fundo mesmo, creio que a melhor medida preventiva anti-esquecimento, além de um espelho no caso das cadeirinhas viradas para trás (cuidando para que o motorista não se distraia com a fofurice do bebê, claro), é simplesmente… CONVERSAR com as crianças, ou cantar para elas, enquanto se dirige. Não importa a idade: recém-nascidos já conhecem e amam a voz de seus pais. Se o hábito for este, quando eles dormirem, sentiremos sua falta ou aproveitaremos, conscientes, os minutos de silêncio. Porém nossa atenção não nos trairá tão facilmente – sem falar que a força do vínculo só se intensificará.

Anúncios

Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s