No Kindergarten, nossos valores

Já contei em post anterior que nós levamos mais de dois anos para encontrar um Kindergarten para o Samuel. Após visitar alguns, conversar com mães e educadoras, tentar entender os sistemas de educação infantil na Alemanha e refletir sobre o que tinha visto, escolhemos um Kindergarten privado, pequeno, localizado no meio de um idílico parque, que fora fundado por uma iniciativa de pais em 1971.

É um Kindergarten privado, mas sem fins lucrativos, administrado pelos pais cujos filhos lá estudam. Da gestão financeira às reformas no prédio, da organização das festas à preparação do café da manhã das crianças, da seleção das educadoras à limpeza quando a faxineira tira férias, tudo é organizado e realizado por nós, pais. O Kindi, como é carinhosamente chamado, vive, portanto, do engajamento das famílias. Tem funcionado: nas turmas mais recentes, algumas crianças já são filhas de ex-alunos, que retornam não só por conta de suas boas lembranças, mas por confiarem nos métodos pedagógicos, na maneira democrática como a instituição se estrutura e por valorizarem sua participação na vida escolar dos filhos. Acima de tudo, por confiarem também nas educadoras, que estão lá há anos: Tarja, uma senhora finlandesa, há quase quarenta, Helga, há dezessete e Ina, que trabalha menos horas por semana, há quatro. Quando Tarja se aposentar, entrará em seu lugar a Cosima, que está em formação com estágio prático conosco e cujo filho era aluno até 2011. (Cosima era designer gráfica e decidiu mudar de profissão após se apaixonar pela vivência na escolinha.)  Esta estabilidade na equipe eu não encontrei em nenhum outro Kindergarten que visitei durante minha longa busca pela escola ideal.

foto kindi mini

E meu objetivo era encontrar a escola ideal não só para nosso filho, mas para nossa família.

A cada três semanas, há reunião de pais. Na penúltima, a pedido das professoras, os pais presentes se juntaram para pensar e listar quais valores queremos que sejam transmitidos por elas durante os anos de Kindergarten. Houve a oportunidade de discutir em pequenas rodas e colocar no papel o que a nós, famílias, parece fundamental, essencial, que uma criança pequena receba de sua segunda casa. As conclusões do time serão apresentadas na próxima reunião.

Meu marido e eu sabemos mais ou menos o que julgamos importante e inclusive conversamos sobre alguns dos valores com parte da equipe e com pais que ocupam os cargos mais administrativos, durante o processo de seleção da escola. Porém devo admitir que fui um tanto pega de surpresa pelo pedido das professoras. Uma surpresa boa, claro.

Em primeiro lugar, porque as vivências infantis (como as da vida adulta) se dão num continuum. Uma criança sabe, obviamente, separar o que é da escola e o que é de casa – porém isto se dá em algum grau, e não perfeitamente, como o é para um adulto. Por exemplo, meu filho jamais falou português na escola, pois sabe que por lá o território é alemão. Lá, ele não se recusa a usar seus “Hausschuhe”, sapatinhos confortáveis usados exclusivamente dentro de casa e no Kindergarten (alemão não entra em casa com os sapatos da rua). Já em casa, é uma briga para ficar de meia… No entanto, crianças que são difíceis para comer (que se recusam a comer legumes e verduras, por exemplo) freqüentemente passam a aceitar melhor uma alimentação variada após iniciarem o Kindergarten, onde a oferta de legumes e frutas é diária, guloseimas não fazem parte da rotina e os amigos demonstram prazer em comê-los. Esta habilidade aprendida em grupo é levada então para casa.

Quando falamos de valores, estes substantivos abstratos, então, acredito que a continuidade entre vida familiar e vida no Kindergarten é importantíssima. Respeito por si mesmo (suas ideias, seu corpo), pelo outro e pela natureza, disposição para ouvir o outro, resolução de conflitos pelo diálogo, valorização da curiosidade, da vontade de aprender e da perseverança, preferir fazer o que é mais certo e não o que é mais cômodo ou rápido, solidariedade, amizade, consideração – são exemplos de valores que gostaria de incutir em meu filho. Saber que posso contar com a disposição da escola em conhecer o que é importante para mim e, especialmente, promovê-los é inestimável.

Especialmente quando nos deparamos com tantas notícias tristes de desvios de conduta e crimes ocorrendo dentro de instituições que existem apenas para servir e zelar pelos cidadãos.

Uma sociedade melhor – em que o respeito ao outro e ao que é do outro são centrais e valem para TODOS – só tomará corpo, de verdade, se a transformação começar por nós, mães e pais. Minha humilde sugestão de primeiro passo: dar-se um tempo e colocar no papel quais destes substantivos abstratos são indispensáveis como legado a seus (nossos) filhos, desde sempre em suas vidas. E ter a lista sempre na lembrança, dando um norte a nossas escolhas.

Nunca é cedo para começar.

Sami e Andi na chuva floresta

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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