Em Rede

Minha gravidez foi planejada e desejadíssima. Não tive doenças graves, meu filho nasceu saudável no hospital universitário de Ulm em 2011. Para minha imensa sorte, tive a presença calorosa da minha mãe por 45 dias após o nascimento e, a seguir, de uma maravilhosa amiga, por mais quatro semanas. O luxo dos luxos: o das mulheres que se amam e se cuidam. Elas vieram do Brasil para me ajudar neste período inexorável que se chama puerpério.

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Por definição, o puerpério dura até 45 dias após o parto. A levar em conta, porém, as mudanças psíquicas que experimentamos com o nascimento de um filho, deveríamos falar, sim, em um puerpério psíquico, emocional – que dura muito mais tempo e pode ser diferente para cada mãe. Em qualidade e duração.

Podemos atribuir muitos adjetivos a ele. Com honestidade, muitos não serão exatamente positivos: cansativo é o primeiro que nos vem à cabeça. Ou exaustivo, extenuante, melhor dizendo. Doloroso (cesárea, episiotomia, fissuras no mamilo, empedramento, mastite), esdrúxulo (aquele leite todo jorrando e se espalhando pela casa, o sangramento), frustrante (para quem sonhava com o leite transbordando, mas não teve esta sorte), de luta (pela amamentação, para ficar acordada, para vencer a dor), amedrontador (será que vou dar conta? Será que o nenê respira?), desestruturante (cadê minha vida como eu a conhecia? Quem sou eu agora? Que corpo é este, esta barriga, quando é que vai embora?), sufocante (cadê tempo para mim? Quando um banho sem agonia, escovar os dentes, quando?)…

E tem também – claro! – o lado bom: aquelas ondas quentes de amor de bicho, o cheiro da pele da sua cria, a beleza insuperável de seus olhinhos girando, seu amorzinho dramático com o peito que lhe nutre, como se aninha em nossos braços e adormece, suas caretas enquanto dorme, seus barulhinhos que ativam nossa natureza ancestral (que até então desconhecíamos). As memórias que nem sabíamos mais guardadas retornam para nos reorganizar e dar força: a mãe assando nosso bolo predileto, a avó e suas mãos um pouco calejadas fazendo cafuné, lembranças remotas de uma vida infantil pedindo para ser revivida.

É uma fase da vida feminina que não se compara a nenhuma outra. Dos efeitos hormonais à privação de sono, das mudanças na rotina às exigências físicas e psíquicas que se impõem: a não ser já ter passado por um, nada nos prepara para o turbilhão que são os meses seguintes ao nascimento de um filho. Não é à toa que o risco de adoecer psiquicamente é maior para uma mulher nesta fase.

(A grande verdade: jamais será possível captar a intensidade desta experiência puerperal sem atravessá-la.)

Só é possível ser mãe, tornar-se mãe, em rede. Percebi isso bem rápido após o nascimento do meu filho. Já na gravidez, senti os efeitos benéficos de ter tido avó e mãe amorosas: minha rede vertical estava lá me sustentando e empurrando para frente em minha missão maternal. Chamo de rede vertical esta que vem da memória, da minha própria experiência de filha e da lembrança dos relacionamentos entre as antigas mães da minha família e seus filhos.

Após o parto, ter minha rede horizontal – a mãe ativamente ajudando, a amiga, as amigas que já eram mães: esta que a gente constrói e busca no presente – foi igualmente fundamental para que eu aprendesse e conseguisse exercer meu novo papel, questionasse e buscasse a certeza das minhas escolhas e até que não pirasse completamente. Faz parte também desta rede horizontal toda a ajuda que vem em forma de dica, conselho, apoio moral, textos, grupos na internet, tanto quanto uma louça lavada, a roupa passada, um convite para um almoço. Meu marido, por exemplo, é parte essencial dela. No Brasil, as babás e faxineiras são sua face assalariada.

Ser mãe “sozinha”, isolada da rede, ou seja, sem referências de outros jeitos de maternar só pode ser profundamente angustiante (na verdade, suspeito de que esta possibilidade simplesmente não exista). Do mesmo modo, pode ser desesperador não ter ninguém com quem dividir a lida física diária dos cuidados de um bebê: ALGUÉM para olhá-lo um instante enquanto tomamos banho, ALGUÉM para colocar a roupa na máquina, ALGUÉM que faça um supermercado, ALGUÉM que nos acompanhe ao médico.

Eu não sou a única muito menos a primeira a acreditar na ideia da rede. Comunidades indígenas se organizam de modo a proteger jovens mães e seus bebês. A psicóloga Laura Gutman também a aborda em seu Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra.

No entanto, quando moramos fora do país, longe da família, e ainda não temos amigos que realmente compreendam nossas necessidades de recém-paridas, o caldo pode entornar. Assim, ainda que minha gravidez tenha sido um sonho, o parto, ótimo, e que eu tivesse todo apoio que tive nas primeiras semanas, quando me vi sem uma presença feminina a quem recorrer, foi o que me aconteceu. E foi tão duro, que gostaria que ninguém mais passasse pelas mesmas dificuldades por que passei. A pior delas foi ver, como resultado do meu stress, meu leite secar.

Por isso que, quando convidada por uma conhecida a participar de um projeto social da Caritas, não titubeei. Chamado “Frühe Hilfe” (“ajuda precoce”), convoca mulheres dispostas a acompanhar mães com filhos de até 3 anos para que elas não estejam (nem se sintam) efetivamente sozinhas. Nossas atribuições são diversas: duas a três horas por semana, fazemos companhia, brincamos com o mais velho enquanto o recém-nascido é amamentado, olhamos o bebê enquanto a mãe dorme algumas horas, conversamos sobre as angústias da nova vida, acompanhamos ao médico, ajudamos a fazer um almoço, orientamos quanto à busca de serviços (sociais, médicos etc) – o que a mulher precisar para que se sinta apoiada e consiga se organizar melhor na lida diária com os filhos. A ideia central é que, dando apoio à mãe, as crianças cresçam num ambiente mais saudável, com menos stress e, em alguns casos, até menos violento. Uma vez por mês, as voluntárias se reúnem com as organizadoras do projeto (uma delas, psicóloga) e recebemos, além de orientações sobre nosso papel, treinamento em questões ligadas a desenvolvimento infantil, família, assistência social, recursos disponíveis na cidade, entre outros.

Mães imigrantes ou nativas, mães com um ou muitos filhos, mães que bebem, mães em situação de violência doméstica, qualquer mãe é bem vinda: o único critério é ter filhos menores de 3 anos. A fila de espera está longa.

No Estado onde moro, a Caritas não é única instituição que oferece este tipo de programa. Há um projeto bancado pelo governo estadual chamado wellcome, nos mesmos moldes, porém restrito às primeiras semanas de vida do bebê. Todas as parturientes, ao sair da maternidade, recebem um folheto anunciando-o.

Hoje me pergunto se, minha experiência teria sido tão diferente, caso tivesse recebido este tipo de ajuda – especialmente, minha maior dor, se meu leite teria durado um pouco mais. Não tenho dúvidas de que algumas voluntárias mudaram o curso da história de vida de algumas das mães e seus filhos. Inclusive quanto à integração ao novo país.

No Brasil, alguém conhece iniciativa semelhante de voluntariado? Se souber, por favor deixe nos comentários! Obrigada.

***
Um ótimo texto sobre puerpério, é este aqui, do ótimo blog A Mãe Que Quero Ser.

 

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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6 respostas a Em Rede

  1. Olá, Bruna! Fiquei muito interessada em conhecer mais sobre esses programas, pois só em visualizar o que você descreveu, me sinto inspiradíssima. Meu alemão não é muito bom, mas posso conseguir ajuda para ler qualquer fonte que você puder me passar sobre esses projetos. Em Curitiba, participo da organização de uma rede de mães empreendedoras: a Maternarum. A motivação de apoio à mãe é muito parecida, mas, no nosso caso, o foco é o empoderamento e a integração da mãe empreendedora em rede colaborativa – no sentido de despertar uma identidade materna enquanto conciliada e harmonizada com uma identidade profissional e, ainda, que ambas as identidades possam emergir, apoiar-se e coexistir colaborativamente, em rede. Nosso site: http://maternarum.com.br/. Um abraço e obrigada por compartilhar essa experiência inspiradora.

    • Oi Natália,
      eu tomei a liberdade de te responder inbox, não sei se vc viu…
      Abraços
      Bruna

      • nataliademes diz:

        Bruna, não vi sua resposta. Uma pena, pois muito me interessa. Se importa de colá-la aqui?

        Abraços e agradeço a atenção.

      • Cara Natalia,
        desculpe a demora! Vou copiar e colar aqui o email :-):

        Olá Natalia,

        Tudo bem?

        Muito obrigada pelo seu comentário no meu blog. Adorei conhecer o Maternarum, uma ideia fantástica!
        O projeto de voluntariado que participo é o da Caritas, em que famílias com crianças até 3 anos de idade são atendidas. Como vc tem interesse, vou explicar melhor como funciona. A ideia fundamental é que ajudando a estas mães, as crianças cresçam num ambiente mais saudável, com menos risco de violência ou abuso (e até financeiro). Qualquer mãe pode pedir ajuda, não há um perfil específico de público… Então há mães solteiras, há famílias com problemas devido a abuso de álcool e drogas, há mães com 4 filhos, há imigrantes que mal falam alemão e há´também as mães que simplesmente se sentem perdidas em funçãõ~do novo papel (maternidade)… A função das voluntárias é simplesmente apoiar no que elas precisam – dar uma mão na organização da casa, dicas de como estruturar uma rotina, ajudar a fazer um almoço, ir junto ao médico, ficar um pouco com as crianças para a mulher sair com o marido, referenciar para serviços de suporte social (que funcionam de verdade aqui…) e de saúde, ajudar a preencher formulários (especialmente para imigrantes)… é bem variado.
        O esperado de cada voluntária é cerca de 3-4 horas por semana por família. Ou seja, na prática, cada voluntária cuida apenas de uma família, pois não temos tempo para mais.
        Mensalmente há uma reunião de 2 horas entre as voluntárias e as psicólogas que orientam o grupo, em que algum assunto útil para o atendimento é abordado: quais são os serviços sociais, desenvolvimento infantil, relação entre voluntária e mãe etc. Nesta mesma reunião cada voluntária tb conta como tem evoluído o relacionamento com a família, o que tem feito, suas dificuldades. Mas a qualquer momento pode-se pedir ajuda às pessoas da Caritas, se houver problemas ou dúvidas. A Caritas banca o custo do transporte a cada deslocamento que a voluntária faça para ir atender à mãe.

        O projeto estadual de ajuda a puérperas eu não conheço bem. Mas tb é baseado neste tipo de ajuda: apoio físico (trocar fralda, olhar o bebê enquanto a mãe toma banho…) para que a mãe tb se sinta apoiada emocionalmente.

        Os links são:
        http://www.caritas.de/hilfeundberatung/ratgeber/familie/ueberforderteeltern/fruehe-hilfen-fuer-den-familienstart

        http://www.sm.baden-wuerttemberg.de/de/wellcome__praktische_Hilfe_fuer_Familien_nach_der_Geburt/215060.html

        Espero ter ajudado!
        Desejo boa sorte ao Maternarum.

        Abraços

  2. Amiga: ótimo texto, não sei bem como cheguei aqui, mas “en buena hora” como se diz por aqui 🙂
    Valeu por compartilhar e parabéns pela iniciativa.
    Beijo!

  3. Pingback: Dias longos e anos curtos | mamãe planilhando

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