Os Sons do Samuel

Em nossa família, a música tem presença maciça e diariamente garantida. Vivo agradecendo por ter encontrado um homem com um gosto musical absolutamente compatível com o meu, porque, de outra maneira, trilha sonora ruim resultaria, seguramente, em divórcio. Música boa é imprescindível.

Somos também dois curiosos, ávidos por novos sons, ele mais do que eu. Nascido num vilarejo de 200 habitantes da Bavária, Andi é um incansável pesquisador de música brasileira, jazz, ritmos latinos, africanos e afins. Ainda que depois do nascimento do Sami o tempo que ele dedica a fuçar a internet tenha se reduzido brutalmente – e a grana que gastávamos em CDs idem-, vez ou outra ele ainda me apresenta empolgado novas pérolas para sua coleção – que, por alto, já deve ter batido as 50.000 músicas só em mp3.

Herb Alpert foi quem introduziu a música brasileira na vida de Andi, lá no fim dos anos 70: 

Samuel nasceu, portanto, num mar de sons diversos e, desde bem pequeno, sabe a diferença entre o violão, o violino e o violoncelo. Uma vez, ouvindo Glenn Gould no jantar, eis que ele, que acompanhava a música com atenção, solta:

– Falta… – e mexe as mãozinhas no ar tocando um instrumento imaginário, como se apertasse 2 teclados virtuais verticais.

Não entendemos. Falta o quê, filho?

– Falta “fona” (sanfona)!!!!

Será que ele queria ouvir as variações de Goldberg com ritmo de forró? rs

Aqui em casa, não acreditamos numa grande diferenciação entre música infantil e para adultos. Tudo sempre foi junto e misturado. Amamos Palavra Cantada, seus temas e arranjos criativos, como adoramos as histórias musicadas do Hélio Ziskind e ouvimos com prazer vários dos discos instrumentais da linha MPBaby. Da mesma forma, Samuel se diverte com bandas Klezmer (música judaica boa pra dançar), o violão de Charlie Byrd, ri com a garganta de Louis Armstrong e Elza Soares, gosta também de um samba, choro e rock. E ama Dominguinhos.

Teve uma fase, no começo deste ano, em que todo dia queria ouvir Hit the Road, Jack (Ray Charles), Samba de Maria Luiza e Trem de Ferro (Tom Jobim). Yo-Yo Ma tocando Bach eu tive que gravar e dar para a Frau Voit, a Tagesmutter*, para escutarem na casa dela também. A lista de suas preferências, na verdade, é longa e variada. Claro, discos infantis também são parte importante do seu repertório – Tiquequê, Fortuna e mesmo Galinha Pintadinha (que, após um período de paixão, já foi esquecida, para minha sorte) entre eles. Canções alemãs. E já há algum tempo, acorda a cada manhã pedindo para ouvir O Leão, da Arca de Noé 2.  Leão leão leão, és o rei da criação.

O cello de Yo-Yo

*Tagesmutter = uma espécie de babá alemã que toma conta de crianças em sua casa. O nome é feio mas elas são ótimas!

Este seu gosto variado e interesse se deram naturalmente. Porém posso também me gabar: tive uma participação ativa.

Assim foi, não porque as pesquisas sugiram esta ou aquela ação do efeito da música sobre o cérebro das crianças. Não. Mas porque ela sempre esteve no centro do nosso relacionamento de mãe e filho.

Antes de qualquer coisa, sempre cantei para ele. Desde que estava na barriga. Quando nasceu, foi recebido em meus braços ao som de Chove Chuva…para que, tendo acabado de ganhar o mundo, não sentisse medo e me reconhecesse. Uma vez, dirigindo numa estrada, enquanto ele chorava lá atrás na sua cadeirinha, desfiei meu repertório de cantigas de roda até chegarmos em casa – chuva e trânsito, foram umas duas horas. Cantei para que aprendesse a escovar os dentes. Para dormir. Para brincar. Para fazê-lo rir. Para fazê-lo parar de chorar.

Neste nosso longo cotidiano de mãe que cuida em casa do seu bebê, muitas vezes também mostrei no Youtube vídeos para apresentar-lhe intrumentos, canções ou artistas escolhidos a dedo. E também para lhe mostrar o Brasil. O bom do seu outro país. Desde “Passarinho, Que Som é Esse?”, do Castelo Rá-Tim-Bum, até Maria Bethania no palco. Helena Meirelles e sua viola. A música como tema de conversa. A música que marca uma identidade.

Crianças amam trenzinhos

Chegamos a freqüentar dois grupos de musicalização no ano passado –  atividade muito difundida entre as mães alemãs e seus bebês. Isto foi o que menos influenciou seu prazer pela música. Recomendo, mas não é o mais importante. Ao menos fizemos boas amizades.

Ah, sim, ele também tem chocalhos e apitos diversos, flauta, violão, pianinho, a sanfona, castanhola, um pandeiro. Casca de coco. Xilofone. Uma cabaça. Um triângulo. Tocamos juntos. Conversamos enquanto isso.

Este esforço todo – que é mil vezes mais prazer do que esforço – resultou em que Sami já tem, aos 3 anos, a música como sua companheira: ele canta quase o tempo todo, músicas conhecidas e inventadas.

Era isto o que eu mais queria: que ele aprendesse a se preencher com boa música. Porque ela – para além de estimular a sensibilidade, a criatividade, a memória ou a capacidade lingüística das crianças -, quando nos preenche, espanta ou ameniza uma solidão básica que tende a nos assombrar a todos de vez em quando. Num estado de solidão, estamos melhores se temos uma canção que amamos em nossa cabeça. A solidão se transforma então em solitude.

E depois, músicas que estão em nossa memória afloram no pensamento como maneiras de conversarmos conosco. Letras e ritmos que vêm à tona como reflexos de afetos, sentimentos, lembranças e elaborações. A música como nossa analista particular interna. (Comigo acontece. É ótimo.)

Ensinar a amar a música é um dos maiores legados que podemos deixar a nossos filhos.

Billy Taylor e uma das minhas preferidas de todos os tempos:

 

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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4 respostas a Os Sons do Samuel

  1. Luciana diz:

    Bru, senti-me tão feliz ao ler esse texto e sentir profunda identidade com o que você escreveu! Rico ama tanto a música que, em qualquer conversa, a cada palavra que o remete a uma canção, ele dá uma dançadinha. Balança a cabecinha pra lá e pra cá e me olha com olhinhos de “Canta essa, mãe!”. Resultado: a contação de histórias é sempre entremeada de cantarolices: “Era uma vez um pato… [pausa – “Lá vem o pato, pato aqui, pato acolá…] … Que adorava a lua… [pausa – “Lua, lua, lua, lua, por um momento o meu canto contigo compactua…”] … E um dia pegou um balão… [pausa – “Cai, cai, balão; cai, cai, balão…]. E assim vai… Hahahaha.

  2. Marieta diz:

    Quero ser uma mãe assim quando eu crescer! ❤ 🙂

    (demorei mas li! hahaha)

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