Samuel e o Filme “Sementes do Nosso Quintal”

Já fazia algum tempo que eu queria assistir ao documentário Sementes do Nosso Quintal (dir. Fernanda Heinz Figueiredo), que estreou em maio aí no Brasil. Estava curiosíssima desde que soube da sua existência. Já havia lido o De Volta ao Quintal Mágico, escrito por Dulcília S. Buitoni (Ed. Ágora), que relata com muita admiração – e até amor – tudo o de que é feito o cotidiano desta pré-escola tema do filme, a pioneira Te-Arte, de São Paulo,  e meu desejo de saber mais, de conhecer de perto a própria Therezita – a fundadora – só se aguçara. Dulcília é a mãe da Cássia, uma grande amiga minha (há mais de vinte anos), ela própria ex-aluna da Te-Arte, de quem ganhei o livro de presente com a seguinte dedicatória:  “Para Bruna, mãe amorosamente preocupada com o brincar e a educação do Samuel. Que ele possa brincar e aprender muito na vida! Com carinho, Dulcília”. (((AMOR))) Ela sabe: procurar um Kindergarten para o primeiro filho pode ser uma ocupação ao mesmo tempo deliciosa, preocupante, divertida, interessante e freqüentemente frustante, quando os disponíveis não correspondem nem de longe às nossas mais modestas expectativas.

Nestes mais de dois anos visitando escolinhas, conversando com mães, lendo sobre o métodos pedagógicos aplicados aqui, refletindo sobre o que queríamos não só para o Sami, como para nós como família, vim a encontrar um Kindergarten que tem muito em comum com esta escola brasileiríssima que prima acima de tudo pelo respeito ao desenvolvimento infantil. A bem da verdade, a nossa versão alemã da Te-Arte é, em alguns aspectos, até mais radical. Neste Kindergarten (NOSSO), se os pais e mães não se engajam, ele não existe. Ele é fruto do trabalho não só das professoras, mas das famílias. Não à toa, outro dia me vi, às sete horas da noite, esfregando o chão e lustrando as torneiras dos banheiros, pois a faxineira estava de férias. E, mais surpreendente, eu não estava xingando nada nem ninguém.

Em virtude de tanta busca e envolvimento, o Samuel viveu o início do Kindergarten de modo um pouco tenso. Natural – até porque desde o início deste ano ele não tinha outras crianças com quem brincar nas duas vezes por semana em que visitava sua Tagesmutter (uma senhora que cuida de crianças em sua casa). Hoje, depois de 2 meses, ele se sente feliz e adora sua escolinha, mas tem dado sinais de que ainda tem que digerir muitas das coisas que vem vivenciando com toda esta mudança na sua rotina, com tamanha ampliação de seu mundo. Nestes dois meses, por exemplo, ele praticamente se tornou fluente em alemão. Se já entendia praticamente tudo, falava muito menos até antes de iniciar o “Kindi”, ao passo que é um tagarela 1000% fluente em português. Assim, quando chega em casa na hora do almoço, tenho tido que manejar, tateando entre erros e acertos (e vai saber o que é erro e o que é acerto… só garanto que não estapeio, apesar de ter às vezes de me segurar!!!), ataques às vezes HOMÉRICOS de birra que têm exigido muito da minha paciência (e do meu marido também!).

E foi por tudo isso que liguei a TV (raridade quando ele está acordado) e apertei o botão do play com ele na sala. Eu estava muito curiosa para saber como meu filho reagiria a este filme, que, em suas quase duas horas, passa a maior parte do tempo conduzindo as câmeras por entre as crianças e suas interações: com o espaço, os bichos, os brinquedos, a música, os adultos e entre si, mas que também mostra o pulso firme e sensível de Therezita na sua lida com os pequenos e seus pais.

Samuel aceitou o desafio no maior interesse. E manteve-se atentíssimo quase todo o tempo. Mesmo quando catou o carrinho e passeou com ele pelo carpete, nas cenas em que uma menina grande passava pelo ritual de receber a pasta da alfabetização – algo ainda muito distante do mundo de um garoto de 3 anos -, estava com os ouvidos ligados: voltou a sentar-se de frente para a tela na cena seguinte, em que uma garotinha assumia a culpa por ter jogado propositalmente a comida do almoço no chão.

Logo no início, ao perceber se tratar de um Kindergarten brasileiro, pediu para sentar no meu colo: que eu não o deixasse sozinho. Era início, também, do ano letivo e as crianças chegavam, uma voltando de férias, outro, pequeninho, para seu début no universo da escola (um caminho sem volta). Depois, identificou-se com o menino Francisco, que tinha crises de raiva e ameaçava chutar a mãe e o pai. (Confessadas aqui minhas segundas intenções!…) Identificou-se tanto, que passou o resto do filme apontando-o e procurando por ele: “Ele.” “Ele também tem um carrinho.” “Mamãe, era o Francisco?” “Ó! Ó o Francisco, eu achei!”

Ficou calado ou perguntou, consternado: “por quê, mamãe???” (sua pergunta preferida atualmente) ao ver meninas e meninos chorando e impressionou-se com a “galinha morrida” e o ganso machucado, resultado da bobajada do… Francisco. Num momento particularmente emocionante para mim, Therezita pergunta a uma mãe, preocupada com o comportamento “infantilizado” da filha, que ainda chora ao separar-se dela e pede colo, se a mãe ainda quer um bebê em casa. Emocionada, ela responde que gosta que a filha ainda caiba em seu colo, ao que Therezita responde enchendo a garotinha de elogios, por ter sabido ler o coração de sua mãe. Uma delicadeza. Samuel, que também passa por isso, vira-se de frente para mim, levanta a camiseta: “Barriga! Faz cosquinha na minha barriga…” e fica me namorando na maior felicidade, rindo, fazendo charme… Não se engane, caro leitor, cara leitora. “Barriga” não foi coincidência. Barrigas e bebês têm sido tema recorrente aqui em casa, desde que ele viu duas amigas minhas grávidas – uma delas, a própria Cássia – e logo após descobriu (ou foi capaz de conceber), no Kindergarten, o que significa ter um irmão menor. Um dia, em outro post, explico.

A música, linda, linda, da trilha do filme, mas também da própria Te-Arte, foi outro ponto de fascinação para ele. E para mim. O que dizer de uma escola que tem músicos como o duo Bico de Pena e Tião Carvalho (como não pensar em João do Vale ao ver sua figura maranhense, ouvir sua voz?) participando regularmente da vida daquelas crianças sortudas? E a emoção de ver meninos e meninas acompanhando uma fugata de Bach com os olhinhos fechados, concentradíssimos na melodia? Sem palavras para descrever o tamanho do encantamento.

Fico aqui imaginando: será que, para o Sami, a oportunidade de ver crianças brincando EM PORTUGUÊS num Kindergarten tão divertido, lambuzadas de lama, areia, sapatos chapinhando a poça, dedos furando o mamão, traz embutido um estranhamento intrínseco, a descoberta de uma possibilidade jamais imaginada, uma vida outra, inteiramente na língua materna (obviamente jamais racionalizado)? Como traz para mim? Estou certa de que não foi à toa sua alegria ao ver a camisa verde-amarela na menina: “Mamãe, ela tá com uma roupa do Brasil igual eu!!!” A mesma coisa quando ouviu o bem-te-vi, ave que marca a vida das crianças paulistanas que ainda se preocupam em ouvir os pássaros. Não saberei nunca, claro, porém sei que o filme foi feito com tanta sensibilidade e proximidade que um menino de três anos – totalmente imerso nesta sua fase de descoberta da vida fora da família – foi capaz de senti-lo. E, a seu modo, apreendê–lo. (Outra confissão: ainda aguardo ansiosa para saber se o olho negro e profundo da Therezita, tendo uma conversa dura com Francisco ao saber dos chutes, também fará efeito por aqui.)

Só posso agradecer de coração à Fernanda Heinz por ter nos proporcionado a chance de assistir a seu “Sementes”, conhecer a Therezita, a beleza desta escola inspiradora, uma saudade do Brasil (seus músicos, suas festas, o bem-te-vi), uma nostalgia de infância feliz e até mesmo uma certeza quanto à escolha que fizemos para o Sami e seu Kindergarten.

Recomendo o filme e o livro a todas as mães e pais de crianças pequenas que estejam procurando ativamente ajudar seus filhos a trilhar por caminhos de felicidade genuína; a professoras e diretoras de pré-escola, claro; porém também a qualquer pessoa ou profissional interessado em conhecer exemplos amorosos de como lidar diariamente com estas pessoinhas curiosas e incríveis. 🙂

Imagens do filme retiradas da internet

Trailer: http://vimeo.com/9792348

http://sementesdonossoquintal.com.br

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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