Por onde trafegam os carrinhos de bebê paulistas?

FEBRUAR-V-08-11

Saiu hoje na Folha de São Paulo um artigo sobre a invasão das novas ciclovias de São Paulo pelos pedestres.

Já era de se esperar. Com calçadas tão esculhambadas, é absolutamente natural que se procure um local menos acidentado, esburacado, sem postes, sem degraus malfeitos, com espaço para pelo menos um adulto, para caminhar.

E ao contrário do que eu sempre tinha ouvido falar, descubro hoje que impingir aos moradores a responsabilidade pela manutenção das calçadas pode ser considerado inconstitucional! Apesar de São Paulo (entre outras cidades) ter legislação municipal obrigando e inclusive ameaçando de multa os moradores que não cuidarem de suas calçadas, o Código Nacional do Trânsito e o Código Civil, que são federais, definem-nas como parte integrante da via pública e, portanto, bem público municipal. O que significa que são as prefeituras, e não os moradores, as responsáveis por planejá-las, construí-las e conservá-las.

Amigos do blog já se queixaram da dificuldade de andar com os filhos pela cidade também por conta da irregularidade, falta de padronização e pouca acessibilidade das nossas calçadas. Se para quem está a pé já é difícil, imagine carregando uma barriga de terceiro trimestre de gestação, um bebê no canguru ou mesmo uma criança pequena como aquela que relatei no penúltimo texto. Além, é claro, dos cadeirantes, usuários de muletas, cegos, velhinhos… a lista – e o número absoluto de cidadãos prejudicados – são imensos.

Minha mãe, que tem vindo anualmente me visitar aqui em Ulm, sentiu na pele o que é ter mais de 60 anos nas ruas da Alemanha: é ter uma vida normal – como se tinha aos 40 anos. É poder, tendo saúde, sozinho(a), aos 90, com ajuda de um andador – que conta com uma cestinha para compras -,  caminhar pela cidade, ir ao mercado, à farmácia, ao médico e ao teatro. E dar uma descansadinha no meio do trajeto, já que ele se transforma num banquinho.  Aqui também se pode ver todo tipo de deficiente físico circulando. O mesmo se dá com as mães: calçadas lisas e uniformes trazem todas as pessoas para a rua.

grafite mulher

Tento me lembrar: em São Paulo, onde se vêem carrinhos de bebê?

  1. Shopping centers
  2. Parques
  3. Jardim Zoológico
  4. ?

Cheguei a vê-los em supermercados e feiras? Pouco, pouquíssimo. Nas ruas, são raros, exceto para uma volta no quarteirão em locais mais tranqüilos. Diferente do skate ou da bicicleta, carrinhos de bebê não fazem parte do nosso imaginário urbano. Não aparecem em comerciais com famílias-margarina. Estão nas novelas?

E olhem que em 2012, segundo o Datasus, moravam no município de São Paulo mais de 700 000 crianças de até 4 anos. Mais do que a população de Frankfurt, a quinta maior cidade da Alemanha.

(Onde que se está dando a vida das nossas mães e crianças pequenas?)

Imagino que para os bebês e crianças, passear de carrinho pelas calçadas de São Paulo seja como enfrentar um circuito de bicicross. Em muitos trechos, só restará à mãe (ou pai, avó, babá…) se arriscar pela pista, um desespero. Um poste bloqueia a passagem, sacos de lixo se amontoam, desníveis exigem força e desestabilizam o carrinho, a roda engancha no buraco…

Carrinhos saem do porta-malas apenas para ambientes muito específicos. Chego a pensar: na lista de compras da grávida paulista com dinheiro curto, talvez seja ideia melhor priorizar o canguru ou o sling. E deixar para comprar um carrinho mais simples, tipo guarda-chuva, quando o bebê for mais velho, depois dos 6 ou 7 meses.

Pois carrinho em São Paulo é quase dinheiro jogado fora.

 

Referências:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/184118-pedestres-invadem-ciclovia-no-centro-de-sp-em-horas-de-rush.shtml

http://jus.com.br/artigos/22302/a-natureza-juridica-das-calcadas-urbanas-e-a-responsabilidade-primaria-dos-municipios-quanto-a-sua-feitura-manutencao-e-adaptacao-para-fins-de-acessibilidade

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/calcadas/index.php?p=36957

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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5 respostas a Por onde trafegam os carrinhos de bebê paulistas?

  1. Joice Ribeiro Giacon diz:

    Pensei bastante nas nossas calçadas antes de comprar o carrinho do Felipe. Já tinha a intenção de andar bastante com ele pelo bairro, parques e até trilhas… Então meu carrinho é quase off-road, para conseguir fazer isso! Fiz questão de ter pneus só invés de rodas e suspensão… E outro dia, indo do carro até a entrada de uma praça (perto do Villa lobos, região privilegiada de Sampa), pensei “se o carrinho não fosse assim, acho que a gente não passava aqui!” – infelizmente é nossa realidade atual…

  2. Marieta diz:

    Uma das grandes lembranças que eu tenho de Ulm somos nós três (Sami, você e eu) passeando pela cidade de ônibus, com carrinho! Super possível! E outro dia eu comentei isso com um amigo e ele disse que nunca havia parado pra pensar no assunto. “É verdade, como as mães passeiam com os filhos de carrinho?”. “De carro!” As mães que são obrigadas a se locomover com seus filhos pela cidade de transporte público, estão sempre com eles no colo… Quão ridículo é isso? 😦

  3. Luciana Lorens Braga diz:

    Pois é, Brubru…
    Quanto mais eu andi nas calçadas de São Paulo, mais eu amo os slings e cangurus…

  4. * Correção: “quanto mais eu andO”

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