Uma pracinha para chamar de sua

Eu tive minha pracinha. Descubro, em pesquisa para este post, que ela ainda existe. Fica perto das Av. dos Bandeirantes e Santo Amaro, ali na Rua Inhambu, e chama-se Praça Coronel Fernandes de Lima. Espiando pelo Googlemaps, copas frondosas cobrem quase integralmente sua área e, com o Streetview, descubro que ainda há equipamentos simples para crianças: trepa-trepa, balanço, um tanque de areia?; nas fotos é possível até ver alguns pais e mães usando o espaço. Bicicletas cor de laranja do Itaú aguardam ciclistas bissextos. Ao que tudo indica, continua um lugar tranqüilo e agradável, cercado por casas; a barreira dos prédios se ergue um pouco mais atrás, na direção de Moema.

Lembro-me da minha mãe estacionando a Brasília vermelha ao lado da praça e de nossos pedidos para irmos até lá. Estávamos sempre juntos eu e minha irmã e os filhos da minha madrinha (três) e às vezes alguns primos deles, e há fotos de família com uma prima minha do Rio de Janeiro, que vinha de vez em quando a SP, também. As idades eram variadas. Lembro-me de, mais velha, lembrar-me com saudade dos tempos da pracinha, quando os caminhos que percorríamos na cidade já eram outros. Meu irmão, quase sete anos mais novo que eu, não a viveu. Ele não teve, até onde sei, sua pracinha. Teve apenas nossa rua sem saída. Mas esta é outra história.

Berta na pracinha

Meu filho também tem sua pracinha, ou parquinho. Fica a 500 ou 600 metros da nossa casa e só se chega lá a pé (ou de bike). É simples e ideal para crianças pequenas: um tanque de areia, dois balanços, uma casinha, uma gangorra, um tronco para se equilibrar em cima. Um cavalinho de mola. Geralmente está vazio, ou com poucas crianças, e eu já conheci e fiz amizade com mães por lá. Ao voltarmos depois de muito tempo sem visitá-lo, Samuel expressa claramente sua alegria de saudade morta. Muitas vezes, invento passeios novos para fazermos, mas ele me diz, ainda em casa: “eu não quelo, mamãe. Eu quelo ir no parquinho de Ulm, a pé.” Ulm, para ele, suponho, seja nossa rua, nosso bairro. Sei que ele está falando do SEU parquinho, da SUA pracinha. Sua pracinha freqüentemente lhe basta.

IMG_1296

No ano passado, ao redor de seu segundo aniversário, vovô e vovó vieram para cá; e vovô o levava todo dia aos parquinhos do bairro, principalmente a este. Meu pai voou de volta ao Brasil uma semana antes de minha mãe. A tristeza do Samuel com a despedida do avô foi patente; e ele andava pela casa procurando-o, ou saía ao jardim gritando “Vovô!Vovô!!!” e então entrava desconsolado: “vovô sumiu…” Chorava, ficava agressivo. Me batia. Tudo piorou quando minha mãe também se foi.  Neste período, que durou umas três semanas, ele não quis ir ao parquinho. Se eu o levava, ia até a gangorra, não se sentava. Não queria o balanço. A areia não tinha graça. Pedia pra voltar pra casa.

Ficamos um tempo longe. Levei-o ao clube – era verão, graças a deus -, inventei brincadeiras novas, mudei seu foco. Aos poucos, o Skype foi ajudando a colocar as saudades no seu devido lugar. E o parquinho voltou a ser um lugar feliz. Quando minha irmã veio, brincou na gangorra com ele. Já faz tempo, foi em março do ano passado, antes ainda da vinda dos meus pais. Até hoje, de vez em quando, ele aponta e diz: “tia Berta sentou aí”. Subimos e descemos, um em cada ponta da gangorra, entre risadas.

***

Gostaria de convidar os leitores a compartilhar histórias das suas pracinhas, suas e de seus filhos. Que pracinhas e parquinhos em São Paulo, no RJ, no Brasil, são freqüentadas por crianças e famílias? Quais são boas, quais precisam ser melhoradas, em quais os freqüentadores conseguiram tomar conta e eventualmente revitalizar o ambiente? Aqui em Ulm, a prefeitura cuida muito bem dos mais de 200 “Spielplätze” espalhados por todos os cantos. No Brasil, muitas vezes é preciso mobilização de alguém ou de um grupo para que um espaço público se torne vivo.
Quero muito colecionar histórias legais de pracinhas. Vocês me ajudam por favor?

Obrigada desde já.

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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3 respostas a Uma pracinha para chamar de sua

  1. Luciana diz:

    Oi, Brubru! Parabéns pela qualidade do blog. Excelente conteúdo e textos super agradáveis de se ler. Amei o post sobre os pequenos caminhadores.
    Eu tive a minha pracinha (uma praçona!) em Salvador: a praça Campo Grande. Fui uma guria que ia e voltava a pé para a escola, sempre sempre, do maternal ao ensino médio. Atravessar essa praça fazia parte da minha caminhada diária até a escola. Gostava tanto que, aos fins de semana, queria mais de lá: eram os momentos que eu gostava de ir com meu avô andar de bicicleta.
    Agora, mãe do Ricardo, gosto muito de levá-lo no Parque da Aclimação, nos fina de tarde, durante a semana. Lá dentro, tem um parquinho bem legal para os pequeninos: Areia, gangorras, balanço, escorregas, trepa-trepa e sempre uma turminha entre zero e cinco anos corendo pra lá e pra cá…

  2. Ricardo Pulido diz:

    Muito bom seu blog, Bruna!
    Ah, a Larissa tem uma pracinha, fica na rua de cima. Tinha uns briquedos, mas a prefeitura removeu (estavam velhos). Mas a Lari não sente muita falta. Gosta de sentar nas pedrinhas – uma área de cascalho onde estavam os brinquedos – e também de subir nas árvores. Em uma ela já consegue e nas outras eu que a “subo”. E claro, pracinha é melhor com o Vovô! Beijão!

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