Pequenos caminhadores

Quando estava à procura de uma creche e um Kindergarten para meu menino – uma história que aliás deve render outro post – fui conhecer uma alternativa à creche chamada “grupo de brincadeiras” organizada por uma escola Waldorf. Até o ano passado, era muito difícil conseguir vaga para menores de 3 anos, as mães entravam nas listas de espera já na gravidez e eu, como não sabia deste fato, acabei não conseguindo uma.

Uma alternativa, então, seria colocá-lo num grupo de brincadeiras, em que uma educadora cuida de algumas crianças por meio período algumas vezes por semana. No caso deste grupo que visitei, às segundas, terças e sextas, oito crianças de 1 a 3 anos ficavam sob os cuidados da Frau Rothaare e de uma mãe – elas se revezavam. O grupo era composto por duas meninas de 14 meses de idade, 2 meninos de quase três, e outras crianças entre estes extremos. Todos os dias, as mães os traziam entre 7h30 e 9hs à sala no segundo andar de uma antiga construção; juntos, tomavam café da manhã às 9h; a seguir, sentavam-se em roda onde musiquinhas eram cantadas e, depois, partiam para uma caminhada ao ar livre.

Este prédio onde o grupo se reunia fica dentro de uma área grande, de construções antigas, isolada por uma muralha, numa região um pouco fora do centro de Ulm, onde funcionam duas escolas e Kindergartens Waldorf, um restaurante, um teatro, depósitos e também alguns escritórios nas salas dos prédios. Na área externa, há muitas árvores e gramados, um cercado com coelhos cuidados pelos alunos de uma das escolas e também ruas por onde transitam poucos carros e bicicletas.

Todos os dias, as crianças eram levadas para passear. E caminhavam por mais de hora. Paravam para ver os coelhos, caminhavam por entre esculturas de material reciclado feitos pelos alunos, coletavam castanhas, folhas, flores, pedras, toda sorte de material que a crianças pequenas, vivendo mais perto do chão, interessam. Mesmo as pequenas, de 14 meses, já firmes em seus passinhos curtos, agüentavam sem pedir colo todo o trajeto – que incluía declives acima e abaixo e obstáculos como tocos de madeira, pequenas rochas ou poças d’água. Detalhe: o dia estava cinza, frio e ameaçando chuva. Na verdade, mesmo que estivesse chovendo um pouco, o passeio teria sido feito.

Meu filho, claro, à época com 20 meses, quis bastante colo. “É porque vc está aqui. Do contrário, ele andaria sem problemas. Quando suas mães estão junto, elas sempre pedem”, assegurou-me Frau Rothaare. (A frase pode não ter sido exatamente esta, porém parecida. Já faz tempo.) A ela, pedem de vez em quando. Geralmente os menores de dois anos; os grandes, às portas do Kindergarten, estavam sempre correndo, disparados na frente, ligeiramente provocando os nervos da professora magra de cabelo vermelho. A única criança que ia no carrinho era uma menininha portadora de Sd. de Down que ainda não sabia andar. Ao final do passeio, as menores estavam exaustas, porém felizes. Todos então voltavam à sala – subindo as escadas sozinhos (inclusive, para meu espanto, as minúsculas – elas já sabiam, aprenderam no grupo, a segurar-se com firmeza no guarda-corpo), e comiam com gosto o almoço recém-preparado.

Acabei também não conseguindo vaga neste grupo de brincadeiras.

Uma amiga do blog me contou ontem que, na escolinha de sua filha, há várias crianças que chegam a pé ou de patinete.  Esta mesma amiga, eu sei, vai sempre que pode ao Trianon ou ao Parque Villa Lobos e coloca a pequena para se mexer. Outra leitora anda a pé com sua filha de 4 anos até a escolinha – também em São Paulo. Esta contou que outras mães, ao vê-las chegando, comentam, com pena: coitada da Maria!!! Como se andar a pé até a escola fosse um tipo de tortura. O carro: mil vezes mais conforto. Num dia de sol, será? Naquele assento quente, com os vidros fechados?

Contei a história do grupo de brincadeiras para ilustrar que até crianças bem pequenas, 14 meses!, podem andar bastante ao ar livre e adorar a experiência. Por sinal, uma recomendação da Associação Americana de Pediatria para prevenção da obesidade infantil é que as famílias promovam atividade física entre seus filhos desde bebês. Entre os toddlers, ou seja, crianças de cerca de 1 a 3 anos de idade, a recomendação é de ao menos 30 minutos de atividade física estruturada e mais várias horas ao dia (mínimo de 60 min) de atividade física não-estruturada (livre). Já entre os de 3 a 5 anos, no mínimo 1 hora de atividade física estruturada e mais várias horas ao dia de não estruturada por dia. Em todas as idades, também não devem ficar parados continuamente por mais de 1 hora – exceto durante o sono.

Sempre tive a impressão de que sair para andar com meu filho é um jeito maravilhoso de vê-lo aprendendo, curioso sobre os caracóis, pedras e flores (qualquer micro-flor da grama), ou sobre os carros, ou pessoas que nos cruzam o caminho, e de conversar com ele, e amo quando ele me pede “o dedo” – é como nos damos as mãos.

É verdade que, nas cidades grandes do Brasil, pode ser difícil adotar as caminhadas com crianças pequenas, mas o exemplo das duas amigas acima mostram que não é necessariamente impossível. Quando em São Paulo, nosso parques são o Ibirapuera o Jardim Botânico (o melhor!!!), mas também íamos andar na feira livre, descíamos três ruas até o supermercado,  ou uns 6 quarteirões até a padaria (programa que ele amava fazer com o vovô, que sempre lhe comprava picolé).

Na feira

Meu filho sempre andou bastante; aliás, quando completou dois anos, disse que já era grande e não quis mais sentar-se no carrinho!!! 🙂 No entanto, a seguir veio uma fase em que ele pedia interminavelmente colo – e muito mais o meu que o do pai. Minhas pobres costas sofriam. A solução foi sempre levar junto algum brinquedo de empurrar: ora seu cortador de grama de plástico, ora um carrinho de mão (com o qual ele ate já me ajudou na feira transportando brócolis e morango). Porém o cortador de grama é barulhento, estrala muito, e o carrinho de mão acabava sempre tendo que ser carregado… Para horror dos mais conservadores e desgosto do avô, Samuel ganhou finalmente um carrinho de bebê de boneca, que ele pedia já fazia tempo; levinho, de alumínio, em que ele transportava, nos seus passeios pela cidade, pelo supermercado, pelo parque, seus bichos de pelúcia de estimação e seus carrinhos! A maior fofura, despertava sorrisos por onde passava. Levei o carrinho para SP na minha última viagem, quando voamos sozinhos, sem meu marido; acabamos deixando-o na casa dos meus pais, pois o interesse pelo brinquedo desapareceu e a mala da volta estava gigantesca (presentes de Natal…).

Até hoje minhas costas são muito gratas a ele e, claro,  inclusive meu pai se rendeu à doçura de ver o neto de dois anos empurrando-o, com seu Porsche dentro.

http://www.healthychildren.org/English/healthy-living/growing-healthy/Pages/default.aspx

http://journal.naeyc.org/btj/200605/NASPEGuidelinesBTJ.pdf

Anúncios

Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
Esta entrada foi publicada em Andar a pé, Atividade física, Sem categoria com as etiquetas , , . ligação permanente.

9 respostas a Pequenos caminhadores

  1. Flaviana Barros diz:

    Amo caminhar com minha filha desde bebe, quando dar uma volta com ela era o melhor antidepressivo para o meu ” maternity blues”.
    Hoje além da escola, passeamos quase diariamente com nosso cãozinho ! Sair para nossas voltinhas nem que for andar um quarteirão é um dos nossos momentos prediletos ! E acredito que assim nessas pequenas caminhadas repletas de descobertas, intimidade entre mãe e filha , vamos ” fortalecendo física e mentalmente” minha pequena de perninhas grossinhas para caminhar cada vez mais longe pelo bairro, pela cidade, pelo mundo e para a vida!
    Post adorável!
    Bjs!

  2. Joice Ribeiro Giacon diz:

    Bruna querida, estou adorando seu blog! Parabéns!! 🙂
    Sobre este post, penso muito no assunto da qualidade de vida que São Paulo nos impede de ter… Bem, estou começando os passeios no parque e pelo bairro com o pequeno agora (2 meses), é realmente importantíssimo ver a vida sob esta perspectiva, mais próximo da natureza e das coisas simples ao nosso redor.
    Espero que tenhamos cada vez mais alternativas para que estas interações aconteçam!
    Beijos e saudades!

  3. Roberta Sampaio diz:

    Bruna, muito bom este post. Aqui eu caminho sempre com o meu filho: vamos (e voltamos) a pé da escola, e ele tb vai andando para o Jd Botânico, a pracinha e a natação. Mas teve uma vez, no fim do ano passado, qdo ele tinha 2 anos e 8 meses, em que haveria ensaio geral da apresentação de fim de ano da escola no Teatro Tom Jobim (que fica dentro do Jd Botânico). E a escola levaria as crianças todas a pé até lá, p/ passar a tarde toda ensaiando. A distância é de cerca de 2 km a 2,5 km, pois o teatro fica na outra extremidade do parque. Mas o pior é que fazia um calor infernal, típico do verão carioca. Eu achei um exagero levar as crianças a pé no sol a pino (sairiam às 13h da escola até lá). Comentei com a profa. do meu filho e ela concordou comigo, mas disse q era decisão da escola. Havia tb um problema logístico por trás: os pais já estavam pagando uma taxa para a apresentação de fim de ano e, se contratassem um micro-ônibus, como já tinham feito para levar as crianças p/ a feira do livro no Centro, ficaria muito caro. Bom, nesse dia eu decidi levar meu filho de carro e deixei ele voltar a pé com o grupo, pois no fim da tarde o calor estaria mais ameno. Fiquei receosa de estar tirando ele do grupo, abrindo um precedente, exagerando nos cuidados. Mas hoje ainda acho que não: tomei como parâmetro eu mesma. No calor de dezembro, eu chegava exausta qdo levava ele à escola, uma distância infinitamente menor. Se não era agradável pra mim andar com o sol na cabeça, naquele calorão, por que seria para ele? Levei-o de carro e ainda falei com a direção que achava uma falta de bom senso colocar as turmas menores para fazer aquela caminhada debaixo daquele sol, às 13h. Mantenho a minha posição. Mas lendo seu post, fiquei na dúvida: será que uma mãe europeia faria a mesma avaliação? Afinal, nós, brasileiras, somos mais superprotetoras – pelo menos me parece isso. O que te parece? Bjos

    • Oi Roberta! 🙂
      Que bom que o Bernardo tem tantas possibilidades para caminhar, acho que faz uma grande diferença na vida de uma criança, mesmo tão pequena, viver a cidade, acompanhar os amigos e ser acompanhado pelos adultos que o amam e que dele cuidam.
      Minha opinião sobre sua dúvida: acho que vc fez certo. Também não precisa colocá-los para andar 5 km debaixo do vapor quente carioca! 😉
      Nos dias de calor extremo aqui – que não chegam à sensação térmica de 50 graus C do RJ, mas que são também bem quentes – a maioria das mães leva os filhos para as piscinas e lagos (há muitos lagos artificiais espalhados pela Alemanha, usados como prainha!), isso sim. E sempre bem protegidos contra o sol: Boné, protetor, roupa com proteção UV… e muito líquido.
      Super obrigada pelo seu comentário, estou adorando nossas conversas desde que comecei o blog!
      Um beijo

      • Roberta Sampaio diz:

        Obrigada pela resposta! Não foram 5 km, mas cerca de 2,5km. De qq forma, o calor daqui, no verão, derruba qq um! Eu achei desumano, não cogitei nem mesmo levá-lo de bicicleta por causa do sol.
        Estou adorando o blog, é uma possibilidade de compartilhar do seu mix de experiências: pediatra, psiquiatra, mãe e estrangeira, imersa numa cultura diferente. Assim é mais fácil de enxergar os nossos vícios culturais de forma mais crítica, não? Uma hora vc podia escrever sobre isso tb. Bjos

  4. Ilana diz:

    Bruninha estou começando a catch up com seu blog agora, em preparação para a minha visita a voce… adorei!!!!!! Parabens!

  5. Patricia Favoretto Renci diz:

    Oi Bruna,

    Sou amiga da Barbhara, ela que me indicou o seu blog! Já vi fotos do Sam, ele é lindo!!!
    Parabéns pela iniciativa de montar o blog e compartilhar estes conhecimentos e acontecimentos com outras mães! Siga em frente! AVANTE! Ele é útil e agradável!!!
    Abraços fraternos.
    Patrícia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s