A pé para a escola

Indo para o Kindergarten de bicicleta

Faz cinco anos que saí do Brasil e me mudei com meu marido alemão para Ulm, cidade considerada de grande porte na Alemanha – como toda cidade com mais de 100.000 habitantes -, à beira do Danúbio, entre Stuttgart e Munique.

Foi aqui que engravidei e me tornei mãe e vim a aprender sobre um novo jeito de viver a cidade quando se tem filhos. Um pouco por circunstância – não temos  família perto e, como a maioria dos lares alemães, não temos empregada doméstica nem babá -,  outro pouco pela revolução que representou a maternidade na minha vida, hoje comemoro o fato de que a cidade onde vivo é praticamente perfeita para uma criança crescer. Com segurança e liberdade – não só porque a violência (assaltos, seqüestros, violência no trânsito…) é assunto raro nas páginas policiais -, mas principalmente porque a urbanização de Ulm oferece oportunidades para que os pequenos caminhem, andem de bicicleta, brinquem em seus quase 200 parquinhos e se encontrem – muitas vezes sozinhos, sem os pais!

Na rua abaixo da nossa, há um Kindergarten; a 500 metros, uma escola fundamental. Nossos vizinhos deixavam seus 3 filhos irem a pé ao Kindergarten (o maior, que hoje já está na escola, cuidando dos menores)  e muitas, mas muitas crianças mesmo, vão e voltam andando – sozinhas – da escola. Uma pesquisa recente encomendada por uma seguradora de saúde averiguou que 1/5 das crianças alemãs chegam à escola de carro (número que tem crescido) e 50% à pé. O restante, de transporte público.

Aliás, ir caminhando para a escola é tema de repetidas reportagens na imprensa daqui, especialmente na época de volta às aulas, que está para acontecer neste mês de setembro. A bem da verdade, existe um projeto nacional de estímulo às caminhadas, numa ação conjunta de uma associação em prol dos interesses dos pedestres (FUSS e.V.) com quatro ministérios federais (Meio Ambiente, Família, Saúde e Trânsito) mais a Agência Federal pelo Meio Ambiente. Este projeto faz parte de um movimento mundial chamado I Walk To School (Eu ando para a escola), do qual o Brasil faz parte, ainda que talvez timidamente.

As vantagens são muitas:

1) As crianças têm mais oportunidades de aprendizado: maior possibilidade de interação com o ambiente, com mais experiências sensoriais; aprendizado sobre avaliação e gestão de riscos e de segurança.

2) As crianças (e os adultos) que vão juntas caminhando têm chance de aprofundar a amizade ou, no mínimo, de exercitar o convívio. Pais que caminham com os filhos também têm aí uma oportunidade para conversar e estar próximo.

3) Estímulo à atividade física (das crianças e dos pais)

4) Redução de caos no trânsito nos horários de entrada e saída.

5) Do ponto de vista de acidentes de trânsito, ir a pé, na Alemanha, é mais seguro: ao contrário do que advoga o senso comum, em 2012, houve menos acidentes com vítimas menores de 15 anos envolvendo pedestres (7171 casos) dos que com carro (10363 casos) ou bicicleta (9892 casos).

E no Brasil? Segundo o Mapa da Violência de 2013, que aborda a violência no trânsito, as mortes de pedestres caíram pela metade entre 1996 e 2011, ao passo que as mortes de todos os outros participantes das vias públicas (ciclistas, automóveis, motocicletas, ônibus, caminhões e outros) aumentou consideravelmente. Por outro lado, segundos dados do DATASUS, em 2012 houve mais mortes de crianças pedestres do que como passageiras de automóveis:

Idade (anos) Total de mortes no trânsito Como pedestres Dentro de automóveis
Menor de 1 110 13 55
1 a 4 418 170 118
5 a 14 1397 401 325

Observação: não encontrei dados sobre total de acidentes de trânsito divididos por idade e categoria (pedestres, automóveis, etc), apenas os dados de mortalidade. Estes números apresentados não incluem, portanto, os casos em que não houve morte. Porém eu imaginaria que há muito mais crianças envolvidas em acidentes de trânsito quando ocupando um automóvel do que como pedestres, talvez seguindo o padrão alemão. (Aliás, aproveito para dizer que, segundo informações do mesmo Mapa da Violência, é possível afirmar que o jeito mais seguro de transitar pelas cidades do Brasil é de ônibus – para todas as faixas etárias.)

É um fato: poder ir a pé para a escola é tudo de bom. Ver as crianças passando de lá pra cá com mochilas nas costas, em suas bicicletas, patinetes e a pé, dá um ar alegre e gentil à cidade. Tendo estudado a vida toda em São Paulo, não tive esta experiência, exceto no meu jardim da infância, quando morávamos no prédio em frente. E confesso que mesmo agora ainda preciso do carro para levar meu filho ao Kindergarten – que não é o da rua de baixo. No entanto, não vejo a hora de poder levá-lo a pé e até deixá-lo, mais velho, ir sozinho, à escola aqui do bairro.  Um orgulho.

No Brasil, também há gente também pensando no assunto: os chamados “caminhos escolares” foram tema de um interessante trabalho de conclusão de curso da arquiteta Marieta Colucci Ribeiro, apresentado à FAU-USP. Será tema de um próximo post. 🙂

 

http://www.welt.de/vermischtes/article131597196/Kinder-sollten-besser-zu-Fuss-zur-Schule-gehen.html

http://www.verkehrs-erziehung.de/die-meisten-kinder-gehen-zu-fuss-zur-schule-1283819.html

http://www.iwalktoschool.org/

http://liga-kind.de/fruehe/106_fuss.php

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_transito.pdf

http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php

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Sobre Cidade dos Meus Amores

Meu nome é Bruna. Médica com residências em pediatria e psiquiatria, imigrei para a Alemanha em 2009 e, desde o nascimento do meu filho, em 2011, virei uma mãezona orgulhosa e contente com minha cria. Sonho com um mundo onde as crianças sejam levadas sempre em conta, ou seja, em que cada ação e escolha nossas, nos perguntemos: isto é bom para o mundo em que quero que meu filho viva? Estou segura de que esta é uma estratégia ética infalível para que construamos cidades mais humanizadas e relações humanas mais transparentes e honestas.
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