“Meu filho é agressivo”- Parte 2

Querida Amiga,

prometi voltar para contar como foi que conseguimos melhorar o clima aqui em casa e aqui estou. Passei, passamos (eu e meu marido) por uma busca longa e foi nos princípios da chamada educação positiva, ou educação respeitosa e “mindful” (consciente e atenta), que encontramos as respostas a nossas perguntas. Nosso estilo de educar já se inclinava fortemente para o que prega esta filosofia parental muito antes de nos depararmos com ela, então foi com poucos ajustes e esclarecimentos que mergulhamos de vez no processo. Mas isso dá assunto para outro post. Neste momento, vou me concentrar nas dicas e orientações para lidar com a questão da agressividade das crianças pequenas.

Antes de mais nada, o passo mais importante (talvez o mais difícil) seja o da aceitação. Aceitação? Sim: aceitar que nossos filhos são pequenos humanos, mas tão humanos quanto qualquer adulto. E que, portanto, também têm a capacidade de experimentar sentimentos considerados ruins – como raiva, fúria, alguma crueldade, irritação, nervosismo, medo, desconforto, angústia, ansiedade etc. Devido a peculiaridades próprias da idade, como comentei no texto anterior, mas também da própria condição humana, estes sentimentos muitas vezes são expressos de maneira que nós, adultos, consideramos inadequada, exagerada, agressiva. Se a gente se dá o direito de ter dias ruins, por que negar o mesmo a nossos filhos? Aceitar seus sentimentos “ruins” é a base para lidar com todas as situações difíceis da jornada da parentalidade.

Afinal, o que eles manifestam com um xingamento, um tapa, um chute, um copo de leite derramado de propósito num momento de raiva é um profundo desconforto com alguma situação que lhes foge ao controle. O que eles buscam é conexão, aceitação e limites: tudo o que vai lhes ajudar a superar o descontrole (que é involuntário), além de, aos poucos,  construir e reforçar vias que impliquem em respostas menos impulsivas e físicas (menos chutes e xingamentos) e mais ponderadas e organizadas (mais discurso). Menos corpo, mais palavras.

E como sabemos, não é fácil ser ponderado num momento de intensa frustração… Então, do ponto de vista prático, como podemos ajudá-los?

  1. Exercitando a paciência e o auto-controle em nós mesmos. Especialmente nos momentos em que somos alvo de sua fúria. Difícil, eu sei. Mil vezes mais fácil falar do que fazer, sem dúvida. Porém com a perspectiva de que a) mesmo que você seja a melhor mãe ou pai do mundo, ainda assim pode acontecer de seu filho pequeno te bater, b) que faz parte do desenvolvimento normal e c) de que podemos aceitar os sentimentos ruins deles, a vida vai ficando mais fácil.
  2. Procurar entender um padrão nos ataques de fúria para poder se antecipar e preveni-los: observar se ocorrem em determinados horário(s) do dia, fim da tarde, antes do almoço, após chegar da escolinha… Fome, sono, hiperestimulação são desencadeantes clássicos. Excesso de doces ou de televisão/internet tornam seu filho mais excitado e mais propenso a irritação. Rotina com horários relativamente rígidos para dormir e comer e garantir uma quantidade de horas de sono adequadas para a idade fazem milagres.  Tempo livre para brincar, mexer o corpo – especialmente em parques, espaços grandes, em contato com a natureza – e descomprimir das tensões e estímulos do dia, idem.
  3. Para as crianças que agridem outras na escolinha, ou que agridem irmãos: quando se observa que os ânimos estão se acirrando, tentar bloquear os ataques físicos contra objetos ou pessoas. Ou seja, procurar ficar perto para segurar bracinhos e perninhas antes que atinjam algo ou alguém. Segure e diga com firmeza e calma que bater não pode.
  4. Se esforçar para não se deixar abalar pela agressividade dele e não julgar. O mantra é: ele não está sendo ruim, ele está tendo um momento ruim. Procurar não enxergar uma agressão como algo pessoal contra vc, adulto, mas como uma manifestação de dificuldade do seu filho de lidar com as emoções que o estão invadindo (lembrando que eles mal podem compreendê-las ou nomeá-las).
    O não julgar e tentar se manter serenos é a parte mais trabalhosa. Especialmente se acontecer na frente de outras pessoas… quando sentimos (por pressão interna nossa mesmo) que nossa capacidade de educar está sendo posta à prova e que DEVEMOS responder de maneira autoritária, corretiva (como diz a tradição).
  5. Focar no sentimento por trás e nomeá-lo, tentando não transmitir julgamentos no tom de voz.”Vejo que vc ficou muito brava porque a mamãe cortou o pão em quadrados e não em triângulos”.

    “Você está se sentindo frustrado porque hoje não vai ganhar um carrinho.”

    Essa parte também é difícil, mas focar no sentimento nos ajuda a isolar nossas próprias emoções ruins que essas crises despertam. Às vezes só isso já basta e a criança se acalma. A questão aqui é aceitar os sentimentos sem achar que ela está te desrespeitando, te desafiando, tentando te manipular. Respeito é um conceito abstrato que vai vir com o tempo, à medida que ela entender no corpo/na experiência dela o que é ser respeitada.

    Não é preciso ceder à birra. Quanto mais seguros estivermos em relação à afirmação do limite imposto, mais fácil é para a criança e para nós mesmos. Ainda que haja protestos.

    E no entanto, ceder à birra de vez em quando também não faz muito mal a ninguém. Mas isso também é assunto para encher outro post inteiro.

  6. Oferecer espaço para conexão, diálogo, se acalmar: abaixar à altura da criança, conversar num tom de voz firme, seguro, porém tranquilo, oferecer colo, um abraço, ficar junto no quarto até se acalmar, olhar no olho pra falar dos sentimentos. Muito importante, e muito mais eficaz do que mandar pro castigo, ameaçar ou punir. Pode falar dos seus sentimentos também.”Sei que vc está chorando porque prefere continuar brincando a arrumar a bagunça. Mas é hora de parar a brincadeira e arrumar um pouco antes de dormir. É muito frustrante para a mamãe também quando eu peço que você jogue sua roupa suja no cesto e você a deixa espalhada pelo chão.”

    Ah, sim, fases de transição (parar de brincar para tomar banho, desligar a TV para jantar, etc) são sempre críticas. Avisar alguns minutos antes – se preciso, mostrando os ponteiros do relógio (funciona melhor para os de 4-5 anos) – também é uma estratégia eficaz de prevenção. Pré-escolares gostam de rotina e de ser avisados sobre o que vai acontecer.

  7. Se seu filho te bater, vc pode segurar as mãos dizendo um não firme e se afastar. Esta é uma consequência natural que traz uma lição importante: não ficamos perto de quem nos machuca.”Vou ficar um pouco na cozinha até você se acalmar, enquanto vc fica aqui na sala, porque eu não gosto quando alguém me bate. Quando vc se acalmar, estarei te esperando.”
  8. Se sentirmos que nossos próprios limites de paciência estão sendo ultrapassados, podemos comentar que precisamos ir para o quarto, para a cozinha, tomar um copo d’água, respirar fundo, contar até dez (ou cem) – algo que dê a eles um exemplo de como se acalmar. Proteger nosso próprio espaço e demonstrar uma estratégia para retomar o autocontrole também são lições importantes para o longo prazo.

Foi quando conseguimos adotar com segurança e consistência – e muito amor e paciência – esta maneira de lidar com as crises de “malcriação” do Samuel que tudo se clareou. Em pouco tempo ele reduziu significativamente os chutes e beliscões, embora os xingamentos (“bobo”, “idiota”, “eu não gosto mais de você”, “você não pode entrar mais no meu quarto”, “vai embora desta casa”) ainda apareçam. Considero um avanço: do corpo, para a palavra. E mesmo os xingamentos estão ficando mais escassos e menos raivosos.

Tudo isso sem castigos, nem punições, nem ameaças – muito menos tapas ou palmadas, que este blog condena sem perdão 🙂 .

Solução mágica e imediata não existe – bater de volta em seu filho tampouco resolve, além de ensiná-lo que é assim que se resolvem problemas, que seu corpo não merece respeito e de todos os riscos que a experiência de apanhar na infância traz. Afora a ironia que é apanhar como “corretivo” por ter batido em alguém…

Mas com respeito, autocontrole, firmeza e a convicção de estar ajudando seu filho a superar uma fase difícil e normal, a tendência é, ao longo do tempo, melhorar. Sem quebrar nem a confiança nem a segurança da relação, ao mesmo tempo em que os ensina que há maneiras melhores de comunicar seu desagrado.

Depois me conta se a vida não fica mais leve.

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“Meu filho é agressivo”

Uma Amiga me escreve em desabafo, aflita por causa de seu filho de 3 anos. Há alguns poucos meses frequentando uma escola nova, lá ele “aprendeu com outras crianças” a ser “respondão”, “malcriado” e a agredir fisicamente os colegas e outras pessoas próximas. Justo ele, que era tão doce, criativo e contente. Agora parece um menino mimado e sem limites. Minha Amiga sente que está fazendo algo errado. Procura motivos – na vida do filho, na própria vida -, testa maneiras diferentes de abordar o problema (em geral de maneira autoritária, imbuída do dever moral de “moldá-lo” para a vida em sociedade), sente-se envergonhada, acredita estar falhando como mãe quando os episódios se repetem. É acometida de uma terrível dor no peito quando vê o garoto dando risada no meio daquela agressividade toda. Chega a pensamentos extremos. Teme que o filho não seja capaz de sentir empatia.

Em grupos de mães e pais nas redes sociais, a queixa se repete. Eu também sei do que ela está falando. Sei bem do que ela está falando. Também já me questionei. Também já temi pelo futuro do meu filho. Já me senti triste e impotente. Tudo isso quando nosso menino (hoje com quase 5 anos) passou a bater em mim e no pai quando contrariado, lá por volta dos 2 anos e meio.

Fato: pré-escolares (2 a 6 anos) frequentemente são agressivos e isso não necessariamente tem a ver com “falta de educação” ou de limites. Nem com problemas psicológicos graves ou maus tratos. Muitas crianças normais, que vivem em ambientes familiares e escolares cheios de atenção e amor, apresentam comportamentos violentos contra outras crianças ou adultos. Xingamentos, tapas, chutes, beliscões, objetos que voam ao chão, demandas em tom autoritário em momentos de irritação: nada disso é indicador seguro nem de problemas psicológicos graves da própria criança, nem de maus tratos, nem de que os pais são um fracasso como educadores. Mas apenas fruto da imaturidade, da incapacidade de controlar os impulsos típicas da idade.

Claro que, se uma criança muda bruscamente de comportamento, vale a pena olhar com cuidado se há algo se passando que possa ser desencadeante: ambientes  ou cuidadores novos, separações, chegada de um irmão, morte de um parente… Porém, para algumas crianças nesta faixa de 2-6 anos, mesmo os desafios normais da vida cotidiana podem bastar para que o sofrimento seja expresso através da brabeza e da raiva.

Aos 3 anos, pode ser muito difícil suportar a realidade de que hoje o copo verde está sujo e que é preciso tomar água no amarelo.

A eles, faltam repertório, vocabulário e capacidade para expressar o que estão sentindo.

Aliás, eles mal sabem nomear o que estão sentindo. Toda a gama de sentimentos ainda é uma massa confusa que não se liga a palavras específicas (medo, angústia, frustração, raiva, ira, tristeza, surpresa…). Mesmo nós adultos eventualmente temos dificuldade identificar o que sentimos e conectá-lo ao seu nome, não é? E se os pré-escolares não podem nomear, tampouco podem racionalizar e controlar o que está acontecendo em seu corpo (os eventos neurobiológicos e hormonais que desencadeiam as expressões da frustração e da raiva).

O punho que acerta em cheio a cabeça do colega que lhe roubou o brinquedo é mais rápido e eficaz do que a língua a articular um argumento de defesa educado e socialmente desejável. É preciso que haja condições especiais (apetite e sede saciados, noite bem dormida, fralda seca etc etc etc) e uma complexa sequência de eventos no cérebro infantil para que a frase “Você pode por favor me emprestar o carrinho?” entre em campo!

Em sua caminhada rumo à vida adulta, eles irão também continuamente lutar por autonomia e independência; em algumas fases se sentirão super fortes, confiantes e capazes (ah os quatro anos…), mas estão ainda muito longe de ter as funções executivas e o controle dos impulsos maduros. Estão apenas iniciando a navegação pelo mar das relações sociais fora da vida familiar (e nós sabemos muito bem como, até o fim de nossas vidas, jamais deixaremos  de aprender com o Outro). Devagar e por meio da repetição, farão, como pequenos cientistas, observações sobre causa e efeito nas relações com outras crianças e com os cuidadores. Obviamente, haverá testes e experimentos: “eu bati, ele chorou. Se eu bater de novo, será que vai chorar de novo? Olha, chorou de novo!  Que interessante!” ou “Hahaha que divertido! Consegui fazê-lo chorar!” (O riso não é sinal de desprezo à dor do outro, mas de satisfação com a própria conquista.)

Há também os experimentos com o poder das palavras: os xingamentos cujos significados nem são plenamente compreendidos, mas o impacto que eles causam, sim. Ou expressões verdadeiramente violentas: “vou matar a Clara com uma pedra”. (Já ouvi isso e quase entrei em pânico.) “Quero que vc morra.” “Vou chamar um caçador pra atirar nele.”
(O quão pleno é seu entendimento sobre a fatalidade da morte?)

Estes experimentos com a própria força, com a força das palavras, nada têm a ver com falta de empatia. Um estudo de 2003, com 99 crianças de 2 anos divididas em dois grupos quanto a comportamentos externalizantes/agressivos, concluiu que o grupo das agressivas demonstrava mais atitudes empáticas nos testes realizados do que o outro. Alguns resultados obtidos sugeriam que, aos 2 anos, uma maior capacidade de regulação fisiológica (ou seja, mais autocontrole) se relacionava a menos comportamentos empáticos.

Então, Amiga, o que eu quero te dizer é: relaxe. Ele só tem 3 anos e, aos 3 anos, as pessoas são assim. Olhe lá na frente, a longo prazo. Seu menino está vivendo e experimentando tempestades de emoções e é através delas – e com sua ajuda – que ele vai aprender a se relacionar com o mundo de maneira melhor e mais aceitável. Que vai desenvolver auto-controle e empatia pelos outros. Voltarei a te escrever. Para contar como foi que o problema aqui se resolveu. Tem solução – e ela depende mais de você, da sua atitude, do que da severidade dos castigos e punições.

Um abraço solidário!

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Mais provas contra os efeitos nocivos das palmadas

Deu ontem no Science Daily: mais um artigo científico, publicado agora no mês de abril no Journal of Family Psychology, comprova os efeitos deletérios das palmadas. E não é qualquer artigo: segundo os autores, a maior metanálise já realizada sobre o assunto, cobrindo 50 anos de pesquisas e envolvendo um conjunto de mais de 160 ooo crianças. É também o estudo que melhor isola os efeitos das palmadas, separando-os de outros tipos de punição física.

No estudo, realizado por Elizabeth Gershoff, psicóloga do desenvolvimento e professora associada da Universidade do Texas em Austin, e por Andrew Grogan-Kaylor, da Universidade do Michigan, o termo pesquisado, “spanking”, foi definido como dar tapas com a mão aberta nas nádegas ou extremidades. A velha palmada. Um método de punição que é utilizado desde tempos imemoriais no trato com crianças e, segundo a Unicef (2014), ainda aplicado por 80% dos pais ao redor do mundo. Mas que, no entanto, é considerado medida disciplinar, não sendo encarado pelos seus adeptos como abuso físico.

Esta visão deveria mudar. O estudo de Gershoff e Grogan-Taylor demonstra que a palmada está associada a efeitos deletérios não desejados e NÃO se associou a mais obediência (compliance) no período imediato, nem a longo prazo – que é o que os pais esperam. Dos dezessete efeitos pesquisados pela dupla, treze tiveram associação significativa com a prática das palmadas, todos na direção de causar prejuízos às crianças. Alguns exemplos: comportamento desafiador, agressividade, dificuldades cognitivas e problemas mentais.

Foram testados alguns efeitos de longo prazo também, entre adultos que apanharam quando crianças: quanto mais apanhavam, maior a probabilidade de apresentarem comportamentos anti-sociais e transtornos mentais, além de maior chance também de defenderem o uso da punição física como método educativo, ou seja, transmissão intergeracional do comportamento. Estes efeitos, o estudo conclui, são semelhantes aos efeitos do abuso físico, ainda que num grau mais leve.

Não tive (ainda) acesso à íntegra da publicação. Porém em 2013, a prof. Gershoff publicou um artigo que faz um apanhado dos achados de suas pesquisas anteriores (também envolvendo metanálises) sobre o tema. Segue um resumo:

1) Palmadas não são eficazes nem efetivas: quando os pais dão uma palmada, quais suas expectativas? Normalmente, querem punir um mau comportamento e reduzir sua recorrência na hora, mas também pretendem aumentar a chance de bom comportamento no futuro. No entanto, em comparação ao “time out” (ir pro cantinho de castigo), a palmada não é mais eficaz; a obediência a longo prazo também não pode ser demonstrada – ao contrário: as palmadas se associaram a menor grau de obediência a longo prazo e menor grau de consciência sobre os próprios atos.

2) Agressão: comportamentos agressivos das crianças são dos que mais levam os pais a recorrer à punição física, porém palmadas definitivamente não reduzem comportamentos agressivos nas crianças. Em todos os 27 estudos analisados pela autora até então, crianças que apanham se tornam, ao longo do tempo, MAIS e não menos agressivas.

3) Palmadas se associam a vários efeitos colaterais negativos: mais problemas mentais na infância e vida adulta, comportamento delinquente na infância e criminal na vida adulta, relações pais-filhos prejudicadas, maior risco para a criança de sofrer abuso físico. Estes efeitos negativos são semelhantes em diferentes culturas.

O assunto dá pano pra manga e merece muita atenção. O Brasil, tendo promulgado há dois anos a Lei da Palmada (Lei n. 13.010, de 26 de junho de 2014), é um dos atualmente 49 países que proíbem a prática. A Suécia foi o primeiro, em 1979. Mas o caminho a percorrer ainda é longo… Resta-nos fazer barulho para conscientizar mães, pais e outros cuidadores da importância de uma educação sem castigos físicos e de oferecer outras alternativas para a criação de famílias em que imperem o respeito e o bem estar. Elas existem!

UPDATE 27. Abril 2016: Finalmente pude ler o artigo, que me foi gentilmente cedido pela própria autora 🙂
Eu estava curiosa para saber quais efeitos haviam sido analisados, quais tiveram associação com a prática das palmadas e quais não.
Entre as crianças, levar umas palmadas se associou a:
– Baixa internalização moral
– Agressividade
– Comportamento anti-social
– Comportamento externalizante (termo da psiquiatria que agrega comportamentos como agressão, delinqüência, violência, hiperatividade)
– Comportamento internalizante (termo da psiquiatria que se refere às depressões, ansiedades, abuso de substâncias, automutilação)
– Problemas mentais
– Relações negativas entre pais e filhos
– Prejuízo de habilidades cognitivas
– Baixa autoestima
– Maior probabilidade de ser vítimas de abuso físico
Porém não se associou a:
– Comportamento desafiador imediato (o grupo de crianças em que este outcome foi avaliado era muito pequeno, impedindo a conclusão sobre a associação que fora observada em outros estudos)
– Abuso de álcool ou outras substâncias, tanto de crianças quanto de adultos
– Baixa auto-regulação

“A associação entre palmadas e efeitos negativos não dependeu de como a palmada foi avaliada (por pesquisadores), quem reportou as palmadas, o país onde o estudo foi conduzido ou a idade das crianças alvo do estudo. (…) Estudos com melhor desenho metodológico identificaram o mesmo risco para efeitos negativos que estudos metodologicamente mais fracos, sugerindo que a associação entre palmadas e efeitos sobre as crianças é robusta.”

Ainda que a associação causal entre palmadas e os efeitos analisados não possa ser concluída desta metanálise, é preciso lembrar que estudos que a comprovem são muito difíceis – senão impossíveis – de ser realizados, devido a evidentes limitações éticas.

https://www.sciencedaily.com/releases/2016/04/160425143106.htm

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3768154/

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Adele é uma mãe de respeito

Então Adele, a cantora, passeou com seu filho de 3 anos trajando o vestido da Anna (Frozen) pela Disney e houve, segundo o texto do Daniel Martins de Barros, colunista do Estadão, um “bafafá”. Nas redes sociais, num dos grupos virtuais de mães de que faço parte, a discussão foi intensa. Adele é exibicionista? Está usando o filho para levantar bandeiras? Obrigou-o a sair assim, já que aos 3 anos ele é pequeno demais para ter tido vontade de se vestir com uma fantasia de princesa? Ou o contrário, foi permissiva e deixou de impor  limites para um desejo do menino que é inadequado e não pode ser estimulado?

Ficou patente que, mesmo entre mães esclarecidas, confunde-se muito entre o que é fantasia infantil, identidade de gênero, orientação sexual,  e que nós adultos projetamos demais nossos próprios medos e preconceitos sobre nossos filhos.

Eu admirei a atitude de Adele. Acho impensável que ela o tenha OBRIGADO a vestir a fantasia de princesa a contragosto, até porque como artista ela tem sido uma espécie de role model em se assumir como se é. Vi em sua postura relaxada e descomplicada uma mãe que respeita o filho que tem.

E que filho ela tem? Um filho… normal! Ao menos, não existe nenhum motivo até o momento para avaliar que não seja assim.

Criança é criança: eles experimentam através de fantasias e brincadeiras vários papéis ao longo da infância. Sim, já aos 3 anos de idade. Até antes, às vezes. E, não fossem as famílias impedindo que meninos saiam na rua fantasiados de princesa ou fadinha, veríamos que garotos brincando de exercer papéis femininos é bem mais comum do que pensamos. (Para as meninas, que podem tanto usar saia quanto calça ou shorts, as coisas têm sido mais fáceis neste sentido.) Só para ilustrar: no Kindergarten do meu filho (atualmente com 20 crianças), há dois que com freqüência se vestem com saias, tiaras, roupas de princesa, sapatos e personagens femininos. Um deles, o de 3 anos, várias vezes por semana. O outro, de 5, em alguma ocasiões especiais. No último Carnaval, uma das meninas (6) estava com uma roupa de mágico, com bigode e barba. Mas no Carnaval até os adultos podem, não é?

Um pré-escolar brincar de se vestir “de menina”, ou uma menina escolher se fantasiar de policial de vez em quando (ou mesmo com freqüência) não é o que irá determinar nem sua identidade de gênero, nem sua orientação sexual. Elas estão apenas exercitando, praticando a diversidade de papéis sociais, de símbolos, experimentando com sentimentos e conceitos abstratos  (a autoridade e a coragem do policial, a força da super-heroína, a fragilidade da borboleta…as possibilidades são ilimitadas e os símbolos envolvidos podem estar, inclusive, a quilômetros de distância do que nossa imaginação pobre e viciada de adultos supõe). São maneiras de apreender e compreender o mundo ao redor. Julgar que este tipo de brincadeira é inadequado fala mais sobre quem julga do que sobre a brincadeira em si.

Mas será que o filho de Adele pensa que é, ou quer ser menina? Tão pequeno, já tem idade para escolher? Bem, crianças transgênero existem. Aliás, nesta semana, uma garota de 5 anos tornou-se a mais jovem brasileira a ter o direito de ser identificada como do outro gênero. Crianças transgênero (ou melhor, com disforia de gênero, o nome utilizado nas classificações psiquiátricas) existem, mas não necessariamente pré-escolares que se fantasiam do “gênero oposto” serão assim classificadas. Muito pelo contrário: crianças com DG são uma minúscula minoria. Destas, apenas uma fração pequena se tornará adultos trans. E provavelmente nenhum deles fez uma ESCOLHA livre quanto a se sentir completamente desconfortável habitando o corpo com que vieram ao mundo – que dirá as crianças afetadas. O emblemático caso de Bruce Reimer, que, com 1 ano e 7 meses, numa complicação cirúrgica, perdeu seu pênis e foi a partir de então criado como menina – seguindo a teoria de que basta a criação para se mudar a identidade de gênero de alguém – evoluiu para uma seqüência de tragédias, culminando em suicídio. O que me faz pensar que identidade de gênero, mesmo nos casos em que há discordância entre o gênero sentido e o atribuído pelos cromossomos sexuais, é uma força da natureza. E há pouco o que se possa fazer para mudá-la genuinamente.

Ou seja, não é deixando o moleque se vestir de bailarina quando quiser que ele se tornará confuso quanto a seu gênero. Qual o problema então? Bem, o preconceito claramente existe. No entanto, para além da limitação de experiências, para além da projeção de fantasmas que pertencem aos adultos, cabem aí também algumas reflexões éticas sobre o significado de negar a fantasia. Eu penso, e é um valor importantíssimo que eu trago como mãe, que deixar nossos filhos livres para ser quem são e se mostrar ao seu lado para enfrentar preconceitos desvelados em olhares enviesados, comentários inadequados e julgamentos precipitados é uma forma de demonstrar amor incondicional e estimular a autonomia (de pensamento), a independência (do julgamento alheio) e a liberdade (de escolha). Alguns impedimentos que fazemos em nome de proteger contra o preconceito podem apenas ensiná-los o conformismo e que agradar aos outros é mais importante do que à própria natureza e o próprio desejo. É isso o que queremos?

Isso não significa que seja fácil ou que eu mesma não tenha meus medos, meus preconceitos, minhas lutas internas e minhas preocupações. Mas às vezes é preciso escolher entre enfrentá-los em nome dos valores mais elevados que me imponho na minha tarefa de mãe, ou sucumbir a eles
Amar o filho ideal é fácil. Quero ver é amar o filho real.
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Acabou-se o que era o Doce

Nunca conheci o Rio Doce. Este rio que percorria 850km da Serra da Mantiqueira ao Oceano Atlântico, que definiu a história e a economia de Minas Gerais, está morto, soterrado sob lama tóxica, após o rompimento de barragens da mineradora Samarco (controlada pela Vale e pela maior mineradora do mundo, BHP) .

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Mariana Filgueiras publicou no Globo hoje uma coletânea de lembranças da presença do Rio Doce na literatura e no cancioneiro nacionais, numa homenagem póstuma. Sobre ele, Carlos Drummond de Andrade escreveu em 1984:

Lira Itabirana

I.
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse
Mais leve a carga.

II.
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!

III.
A dívida interna.
A dívida externa.
A dívida eterna.

IV.
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Sem berro?

Rios definem cidades, países, a história, constróem civilizações, determinam culturas. Paulistana que sou, os rios da minha vida sempre estiveram mortos, fedendo, atrapalhando o trânsito. O córrego que passava por Moema e em 1985 inundou nossa escola foi parar debaixo do concreto, de prédios de apartamentos.

Outros ríos eu não tive, conheci São Félix do Araguaia quando estive por um período curto entre os Karajá alguns anos atrás e vi como suas águas banhavam, inundavam, alagavam, transbordavam sua cultura: fonte de vida e de morte, não há possibilidade de ser Karajá sem a existência do Araguaia.

Até que vim morar à beira do Danúbio, aqui em Ulm, Alemanha, onde meu filho nasceu e sempre viveu. Vejo sua relação de amor com o Donau (nome alemão) e fico por isso especialmente tocada ao pensar em um rio maltratado, que dirá morto de maneira tão bruta e violenta.

Donau cascalhos

O passeio preferido nas tardes de sol (ou chuva, tanto faz) do menino é andar de bicicleta na beira do rio. Da Metzgerturm até o outro lado, atravessando a ponte de onde se pode ver o rio Blau (quase um córrego) desaguando nas águas maiores, quando ele invariavelmente comenta: o Donau é o mar para o Blau. Parar em frente ao clube de remo, num ponto onde cascalhos se acumulam e de onde os remadores partem com seus caiaques e canoas, para jogar pedras. Saber, aos 4 anos, da nascente e da foz: que ele vai até o Mar Negro e, de lá, para o Mar Egeu, até o Mediterrâneo. Criar inclusive sua própria geografia – misturadas ao Mediterrâneo, suas águas também banham um país chamado Sovacolândia, que faz fronteira tanto com a Grécia quanto com o Brasil. Um rio habitando as brincadeiras, as conversas, a cosmogonia própria do menino.

E olha que o Danúbio é um rio urbano, domesticado, de margens estudadas, controladas e aproveitadas em cada centímetro de sua existência. Não oferece perigo, praticamente. Sua água é gelada, sua fauna é mansa. A cada dois anos, um festival cultural se realiza às suas margens aqui em Ulm, numa iniciativa para estabelecer uma cultura de paz entre os dez países atravessados por ele.
Donaufest

O Doce não devia ser assim domesticado; imagino-o muito mais caudaloso, selvagem, com sucuris, piranhas, onças pintadas bebendo à sua margem, os casebres, as vacas leiteiras, as cabras, a pescaria, as árvores frondosas, bichos e plantas da Mata Atlântica. Imagino quantas histórias, lendas e brincadeiras não foram criadas, quantas canções anônimas e poemas mal ou bem feitos inspirou. Um rio brasileiro, de águas refrescantes e cheias de perigo, vida, graça e aventura. Na Europa não tem rio assim.

Daqui de longe, fico triste por ver seu fim, ainda mais assim, debaixo de um tsunami criminoso de lama podre. Toda a região está hoje incompatível com a vida. Sem água, inundada pelo cheiro de carniça e peixe morto, contaminada por substâncias tóxicas que se infiltrarão pelo solo, água e ar por gerações. Suponho que as pessoas precisem ser retiradas de lá com urgência, ou haverá risco iminente de doenças e morte em massa. Um apocalipse local, que o poder público e a Samarco não têm encarado com a gravidade e seriedade que merece.

12194520_933209763420967_7529994429800355293_o(Foto: Leonardo Merçon)

Era uma vez o Doce, um ex-rio brasileiro, tragicamente brasileiro.

A esperança: um grupo de cientistas diversos e outros voluntários está se organizando para arrecadar fundos e unir esforços para preparar um relatório independente de impacto ambiental e divulgar informação, indo a campo e se utilizando das mídias sociais neste intento. Para ajudar, foi organizado um crowdfunding (clique aqui) e um grupo no Facebook para coordenação das ações.

Para doar mantimentos, roupas ou dinheiro, entrem no site da Prefeitura de Mariana aqui.

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Amamentar é coisa de…

Amamentar é coisa de pobre. É, sim.
Amamentar é coisa de rica. Também.
Amamentar é coisa de índia. De africana na tribo. De esquimó.
De modernete em Berlin. De nova-iorquina vestindo Prada. Francesa na vinícola. Dinamarquesa, islandesa, grega, chinesa, uzbeque. Na Mongólia, entre camelos. Brasileira que desce a ladeira.
Cabelo assim, cabelo assado, cabelo descabelado. Sem cabelo.
Olho azul, violeta, castanhos, furta-cor.
Duas pernas, ou nenhuma.
De quem vive, de quem é sobrevivente.
Muçulmana, católica, evangélica, judia, budista, xintoísta, atéia.

Amamentar é coisa de empregada doméstica. De über-model, médica, atriz, professora, escritora, funcionária pública, artista de circo, CEO, veterinária, bombeira, jornalista, ativista. É coisa de soldado americano.
Amamentar é coisa, inclusive, de homem. Que nasceu com cromossomos de mulher.
Amamentar é coisa de quem tem tetas, mamas ou seios. Dois, mas pode ser um. Grande, pequeno, bico pra fora, bico invertido, com ou sem concha de silicone. Com ou sem prótese de silicone.

É coisa de quem luta, e consegue ou não. Com ou sem sonda de relactação, translactação, realeitamento. É coisa até de mães adotivas (viva a indução da lactação!).

Amamentar é também coisa de pai. De avó. De tia, vizinha, obstetra, pediatra, cabeleireira, babá, lojista, garçom. Funcionário público, bancário, taxista. De empregador, de colega de trabalho. É coisa de quem cuida de quem está amamentando. De quem sabe o poder do apoio, do incentivo e do não julgamento.

Amamentar é coisa de quem se preocupa com a saúde. Das crianças, das mães. Das próprias, das alheias. De quem vê no contato entre mãe e bebê o valor de um tesouro.

Amamentar é sempre coisa de quem ama.

E no amamentar, a experiência da humanidade na carne. Matar a fome, a sede, nutrir, mas também matar a saudade do que nos é mais ancestral e quem nem sabíamos que estava lá, nos esperando. Para nos unir a todas através dos milagres do corpo.

E no entanto… haters gonna hate. Enquanto isso, duas legislações recentes, uma municipal e outra federal, dão uma força às mães e bebês. A primeira multa estabelecimentos paulistanos que impeçam a amamentação em público. A segunda regulamenta a publicidade e a rotulagem de produtos com potencial de interferir negativamente na amamentação. Notícias alentadoras num mar de mediocridade…

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

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Parem. Apenas PAREM de humilhar crianças na internet.

Nos últimos dois dias, um triste vídeo filmado dentro de uma escola municipal no Rio de Janeiro alastrou-se pelas redes sociais. Nele, vê-se um garoto, identificado nesta reportagem como tendo sete anos de idade, derrubando os móveis e objetos de uma sala, ao mesmo tempo em que é tratado com sarcasmo e raiva pelos funcionários da escola. “A gente não pode bater nele, a gente não pode segurar ele”, diz uma voz feminina sem esconder o desprezo. “Isso, tomba”, a mesma voz ordena com ironia. Ao fim do vídeo, os adultos – VÁRIOS – dizem que chamarão os bombeiros e a polícia.

Resultado: milhares de comentários de ódio contra o menino, questionando os pais, sugerindo castigos físicos e vaticinando um destino trágico de delinquência. A minoria questionou a atitude dos funcionários da escola. E quase ninguém se lembrou de que este a existência e divulgação deste vídeo configuram crime.

Gente, estamos falando de uma criança de sete anos, aluno do primeiro ano do ensino fundamental. Iniciou a vida escolar há menos de um ano. Segundo a  reportagem acima, “não há registros de problemas anteriores com esta criança.” Como pode que, em tão pouco tempo, os responsáveis por cuidar e educá-lo tenham optado por tamanha violência na abordagem de um problema de comportamento? Será que houve, ao longo dos últimos meses, algum esforço realmene interessado do corpo de funcionários para tentar estabelecer uma conexão mínima, mas real, com ele, antes de optar pela medida extrema de humilhá-lo publicamente?

Será que este menino pode confiar em algum adulto que trabalhe neste estabelecimento público de ensino?

Crianças têm ataques de raiva, frustração, desespero, medo… Todo mundo sabe disso. Ainda assim, num fenômeno que eu não consigo entender nem explicar, o senso comum espera delas que, desde a mais tenra idade, saibam se controlar, até mais e melhor do que muito adulto por aí, e apenas se expressem dócil e calmamente através de palavras. Além, claro, de que aceitem com a maior mansidão toda e qualquer situação ou ordem estabelecida pelos adultos. Como se fossem robôs ou poodles amestrados.

Como se a neurociência não tivesse já demonstrado que o amadurecimento das habilidades de controle dos impulsos se dá numa fase muito mais tardia do desenvolvimento – e que isto depende em grande medida das experiências vividas na infância.

Enfim. Um menino inicia um ataque de raiva por motivo desconhecido a nós, expressando-a através do seu corpo. Ninguém tenta pará-lo. Ninguém se abaixa à altura dos seus olhos. Ninguém tenta conversar com ele mantendo domínio pleno do papel de autoridade, no intento de conduzir a situação para uma solução pacífica para todos e pedagógica para a criança. Ninguém o enxerga como um aluno precisando de orientação e ajuda. Só lhe resta, mesmo, responder ao clima de violência física iminente e humilhação moral que os adultos ao redor estabelecem. Ou alguém espera que ele, apesar de ter força para derrubar um banco, seja capaz de se proteger da incitação manipulatória que vemos se armar ao seu redor?

Uma criança, para aprender a expressar sua frustração e sua raiva de maneira socialmente apropriada, precisa de tempo, maturação neurológica e de exemplos de como fazê-lo. Precisa, acima de tudo, de relações profundas, de confiança, com seus cuidadores. Crianças aprendem a respeitar quando são respeitadas, ou seja, quando experimentam, através de seu corpo e suas vivências cotidianas, o mesmo respeito. E este é um conceito abstrato; para ser aprendido, precisa ser vivido na pele de pessoa respeitada. E, como se sabe, não é coisa que se imponha, mas que se conquista – inclusive em se tratando de crianças.

Cuidado: não estou, de maneira nenhuma, propondo aqui a substituição da família ou livrando os pais de sua responsabilidade primordial. Todos sabemos que professores da rede pública convivem diariamente com violência real nas escolas. Alunos portando armas, tráfico de drogas, agressões diversas de pais e alunos, além da injusta desvalorização da profissão. Nada disto, porém, justifica o que se vê no filme. Pois se não lhes cabe substituir a família no ensino de valores, sem dúvida espera-se de professores que estabeleçam relações respeitosas e construtivas com seus alunos.

Quanto a sua família – não tenho o que comentar. Não conheço o contexto familiar deste menino. Posso especular: será que ele já teve a oportunidade de aprender a se controlar? Será que teve exemplos positivos? Ou será que ele, neste episódio, reproduz o que vê nos ambientes que convive? Ou mesmo na televisão? Será que é um menino que tem algum tipo de doença mental, diagnosticada ou não, que se manifeste com aumento da agressividade e pior controle de impulsos? Eu não sei – e portanto não posso julgar.

Mas posso observar que professores, que são os responsáveis pela proteção dos seus alunos, quando empunham uma câmera de vídeo feito arma e proferem palavras em tom agressivo e manipulador contra um menino indefeso, praticam abuso de autoridade e expõem de maneira inequívoca seu despreparo para a profissão. Serão agora submetidos a inquérito para apuração dos fatos. É o mínimo que se espera.

Afinal, a própria realização deste vídeo e compartilhamento na internet configuram crime.

Uma olhada por cima no Estatuto da Criança e do Adolescente e rapidamente identificamos a violação de um punhado de artigos. Vou mencionar só um, a título de exemplo:

“Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.”

Enfim, filmar uma criança em crise e submetê-la a escrutínio público, a ataques de ódio e ameaças é, no mínimo, ferir sua dignidade. Um vídeo destes, reproduzido à exaustão pelos próximos anos (exceto se for retirado do ar por ordem judicial), é capaz de selar um destino. E, dos alto de seus sete anos, esta criança tem (ou deveria ter) a oportunidade de aprender, através de exemplos positivos e de palavras certas de cuidadores respeitosos, como lidar com emoções negativas e aumentar progressivamente sua capacidade de regular impulsos agressivos.

Precisamos começar a cuidar mais de nossas crianças. Falta-nos o senso de que cuidar das crianças alheias, mesmo das desconhecidas, é apostar e investir no capital humano do futuro. Quando reproduzimos ou compartilhamos material que as expõe vergonhosamente, estamos contribuindo para seu linchamento moral.  Participamos do crime.

Chega de humilhar crianças na internet. O respeito e a dignidade de todas as crianças devem ser objeto de zelo de todos nós.

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